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LEITURA: MANEIRAS DE ENSINAR, MANEIRAS DE APRENDER

UMA POSSIBILIDADE TEÓRICA QUE SE EFETIVA NA PRÁTICA.
Andréia Santos da Costa Ferrão*

 

RESUMO
Ao ingressar na escola espera-se que uma criança saudável apresente uma alfabetização tranqüila, porém, ler e escrever são habilidades que exigem da criança conhecimentos que até este momento não lhe foram requisitados. Partimos da premissa de que todas as pessoas são iguais e capazes de aprender e se isso não acontece precisamos verificar o que está acontecendo. As razões para a não aprendizagem são as mais variadas e vai desde o desconhecimento do educador até uma causa mais específica como a dislexia. Nenhuma teoria ou metodologia é suficientemente ampla para dar conta de toda complexidade dos processos que envolvem a aprendizagem. O ensino da leitura e da escrita é alvo de diversas pesquisas e publicações, mas ainda não existe no Brasil instrumentos de avaliação de nível de leitura, nem estudos amplos que descrevam quanto tempo é necessário para que as crianças possam progredir nessa área. Resta ao educador utilizar algumas estratégias para auxiliá-lo na prática pedagógica.

Palavras-chave: Aprendizagem – Dificuldade de Aprendizagem de Leitura – Dislexia – Estratégias de leitura


1. Introdução

O presente artigo tem como objetivo descobrir como a criança aprende a ler e como o educador pode auxiliá-la na aquisição desta habilidade.

Dentro de uma perspectiva interacionista o mais importante para a aquisição de uma nova aprendizagem é sempre partir daquilo que o aluno já sabe. Ao basear-se naquilo que sabe, a criança faz as pontes entre o saber e aquilo que está aprendendo.
O educador deve se preparar para suprir as faltas sejam elas cognitivas, afetivas, sociais ou psicomotoras. O aluno chega à escola desejoso de aprender, de saber mais do que aquilo que sabe, ele tem fome de aprender, de saber, de falar, de ouvir. Cabe ao educador manter esse desejo aceso. É no desejo expresso no ato de ensinar que o educador envolve o aluno em sua paixão por aprender. “Ensinar e aprender são movidos pelo desejo e pela paixão” (FREIRE, 1992, p.11).
Dentro desta perspectiva, todo ser é potencialmente igual e passível de aprender, independente da classe social a que pertence e de suas especificidades – sexo, cor, idade. Se isso não acontece precisamos verificar o que está acontecendo. As razões para a não aprendizagem são as mais variadas e vai desde o desconhecimento do educador até a uma causa mais específica conhecida por dislexia, levando às repetências múltiplas e conseqüentemente ao fracasso e evasão escolar.

Todas as tarefas de nossa vida cotidiana envolvem leitura e escrita. O domínio dessas habilidades implica na liberdade contra todas as formas de manipulação e opressão. Quem lê não é nem dependente, nem marginalizado. Pode se locomover fazendo uso de transportes ou para procurar uma rua, fazer compras, cozer alimentos, utilizar um carro, ler um livro, utilizar o microcomputador, enfim, se inserir verdadeiramente no mundo. É, portanto, uma ferramenta indispensável à vida em sociedade. Mas, apesar de toda essa importância que a leitura apresenta às nossas vidas, as estatísticas são muito duras em relação a esse assunto.
O ensino da leitura e da escrita é alvo de diversas pesquisas e publicações denotando uma constante preocupação dos educadores e pesquisadores com o ensino destas habilidades. No Brasil, porém, não existe instrumentos de avaliação de nível de leitura aos quais o educador possa recorrer, nem estudos amplos que descrevam quanto tempo é necessário para que as crianças possam progredir nessa área. Busca-se com este estudo encontrar estratégias que auxiliem o professor a ajudar seus alunos na conquista da leitura.

O motivo de desenvolver este estudo diz respeito ao grande número de crianças que após um ano ou mais de estudo, aulas de reforço, encaminhamentos psicológicos, pedagógicos, psicopedagógicos, fonoaudiológicos e neurológicos não evoluem muito no processo de aprendizagem levando ao insucesso, tornando-se repetente, rotulada, desmotivada e provavelmente candidata à evasão escolar. Avalia-se este estudo como de suma importância para contribuir com os educadores de forma a reverem os recursos que estão utilizando, bem como a se auto-avaliarem buscando êxito em relação a seus alunos, promovendo de fato a construção do saber, aproximando a teoria da prática pedagógica.
Esta pesquisa está voltada para intervir na prática do educador. É um estudo direcionado para a fase inicial da leitura, onde o educador deverá descobrir o que seu aluno já sabe acerca desse assunto e de onde deverá partir para a construção e reconstrução de novos conhecimentos.

Esta pesquisa foi desenvolvida em dois momentos: no primeiro momento realizou-se pesquisa bibliográfica com o objetivo de analisar as teorias e pesquisas desenvolvidas por diversos autores acerca do tema e no segundo momento, que aconteceu paralelo ao primeiro, realizaram-se os estudos de caso com alunos de 1ª e 2ª séries de uma Escola de Ensino Fundamental localizada na periferia de uma cidade do interior do Rio Grande do Sul. O Estudo de Caso têm a importante função de gerar hipóteses e construir teorias.

Os instrumentos utilizados foram: Relato de Encaminhamento Pedagógico e questionário aplicado aos professores (elaborados pela pesquisadora); entrevista com as famílias (anamnese) - elaborada pela pesquisadora; observação dos alunos em sala de aula; observação com mediação em atendimentos individuais e no grupo; WISC (Wechsler Intelligence Scale for Children - Wechsler, 1949) aplicado pela psicóloga da escola; provas do diagnóstico operatório (WEISS, 2004); prova das 4 palavras e 1 frase para identificar o nível psicogenético da escrita (FERREIRO 1985); avaliação fonoaudiológica escolar (CONDEMARIN, 1986 apud JARDINI, 2003); jogos aplicados à fonoaudiologia prática sugeridos pela fonoaudióloga (RONCADA & MARQUEZ, 1998); Instrumento de Avaliação Pedagógica para classes e escolas especiais devidamente adaptado e atualizado (FADERS); Instrumento de Avaliação de Reconhecimento e Memória Auditiva (adaptado pela pesquisadora) e Avaliação Funcional da Visão (FCEE – Fundação Catarinense de Educação Especial).

Os estudos de caso foram utilizados em reuniões pedagógicas mensais com encaminhamentos e planejamento para possível orientação e intervenção nos encontros semanais individuais realizados entre a coordenação e os professores destes alunos.

2. Aprendizagem

Pode-se dizer que todo o trabalho do educador tem como foco a aprendizagem. Dewey afirma que “se o aluno não aprendeu, o professor não ensinou; se o aluno não aprendeu, o esforço do professor foi uma tentativa de ensinar, mas não ensinou (...)” (DEWEY apud FALCÃO, 1995, p.19).

Vítor da Fonseca em seu livro Introdução às dificuldades de aprendizagem traz as contribuições da psiconeurologia relacionando o cérebro e o comportamento e o cérebro e a aprendizagem, afirmando ser este órgão o responsável por toda aprendizagem humana. Diz ainda, que para se compreender as relações dinâmicas e complexas da aprendizagem, é necessário conhecer a estrutura e o funcionamento do cérebro.
Conforme Fonseca:

(...) a aprendizagem é um produto da experiência que se concretiza numa mudança adquirida de comportamentos, onde estão em jogo condições internas e condições externas, inerentes ao indivíduo e ao seu envolvimento, não podemos esquecer que o comportamento é movido por interações entre dois determinantes fundamentais: o psicosociológico e o neurobiológico. (FONSECA, 1995, p.148).

Quanto mais aprendermos sobre as relações cérebro-comportamento e cérebro-aprendizagem, melhor será a nossa compreensão sobre como a criança aprende, o seu potencial cognitivo a explorar e sobre as intervenções necessárias à criança com dificuldade de aprendizagem.
Entender como o cérebro funciona é a explicação científica para o processo de aprendizagem. Para aprender, nosso corpo e nosso cérebro devem estar aptos. A cada estímulo o cérebro muda sua anatomia. A cada nova informação recebida, sinapses são criadas e configuram-se novas redes entre os neurônios, que guardam essas informações na superfície do cérebro como a memória de longo prazo. Esses circuitos são ativados sempre que uma das informações seja necessária a um novo aprendizado. A memória também é ativada durante o sono e o sonho, quando as memórias adquiridas transitam por todo cérebro sem interferência dos sentidos.

Aprendizagem é um fenômeno que acontece no dia-a-dia, desde o início de nossas vidas (ou quem sabe até antes). Não é hereditária. É um processo pessoal, porque depende do envolvimento, esforço e capacidade de cada um; é gradual, porque se aprende um pouco de cada vez e de acordo com seu ritmo próprio. A aprendizagem é um processo contínuo que ocorre ao longo da vida, pois estamos sempre aprendendo, sempre adquirindo novos conhecimentos. A aprendizagem garante a continuidade da espécie humana, permitindo a transmissão da cultura entre as civilizações, a inserção social e transforma, criando o homem que deseja.
Assim, o sujeito que não aprende, não cumpre as funções sociais da educação e está condenado ao fracasso.

Para alguns autores a aprendizagem é um processo cumulativo onde cada nova aquisição se adiciona ao repertório já adquirido. Outros autores pensam que cada nova aprendizagem modifica o quadro anterior, faz o indivíduo reestruturar-se, dá-lhe nova perspectiva, identifica um caráter integrativo onde se altera a estrutura ao invés de somente acrescer.

A pessoa é um todo afetivo-cognitivo-psicomotor, a modificação de um desses aspectos influencia nos demais, portanto diz-se que a aprendizagem é global, ocorrendo, porém, a predominância de um desses aspectos sobre o outro. Isto acontece dentro de uma visão monista que não os separa, nem o processo ensino-aprendizagem; nem afeto-cognição, pressupondo uma relação de interdependência entre eles. A aprendizagem se dá de fora para dentro e ocorre através da mediação. Os elementos mediadores são os instrumentos, signos e todos elementos do ambiente humano carregado de significado cultural. Os processos de mediação sofrem transformações ao longo do desenvolvimento do indivíduo e se constituem em funções psicológicas mais sofisticadas – ações conscientemente controladas, atenção voluntária, memorização ativa, pensamento abstrato, comportamento intencional.

Vygotsky defende que desenvolvimento e aprendizagem não acontecem de forma isolada, um depende do outro, porém há uma distinção entre aprendizagem e desenvolvimento interno, pois quando desenvolvimento atinge o nível real, o aprendizado atinge o potencial, estando este sempre à frente daquele. Com isso indica dois níveis de desenvolvimento: o desenvolvimento real que corresponde a tudo que a criança realiza e pode fazer sozinha e o desenvolvimento potencial que está além do desenvolvimento real, isto é a criança pode aprender conforme seu processo de maturação e diante da interação com mediadores, parceiros mais experientes. As interações são internalizadas ou reconstruídas tornando a criança apta a realizar a atividade sozinha.
Os educadores devem atuar na zona de desenvolvimento proximal, que é a distância entre a zona de desenvolvimento real e a zona de desenvolvimento potencial. O educador deve avaliar sempre o que o aluno traz em sua “bagagem” e o ensino deve ser útil e criativo.
De acordo com Vygotsky:

Aprendizado não é desenvolvimento; entretanto, o aprendizado adequadamente organizado resulta em desenvolvimento que, de outra forma, seriam impossíveis de acontecer. Assim, o aprendizado é um aspecto necessário e universal do processo de desenvolvimento das funções psicológicas culturalmente organizadas e especificamente humanas. (VYGOTSKY, 1989 apud LOMÔNACO, 1997, p.22).

Assim, Vygotsky dá um destaque importante ao contexto histórico e cultural na aprendizagem, diferenciando-se, nesse ponto, de Piaget.

Piaget não se deteve em explicar a aprendizagem, mas seus estudos basearam-se em saber como o sujeito aprende - como o sujeito constrói seu conhecimento. Tenta assim, explicar o conhecimento como um processo de interação entre o que acontece fora do indivíduo com o que lhe acontece internamente.
Os resultados das investigações de Piaget são encontrados principalmente em dois livros: A linguagem e o pensamento da criança e A formação do símbolo na criança. Imitação, Jogo e sonho, imagem e a representação. Segue-se abaixo uma síntese de suas investigações.

Piaget vê o aluno como sujeito ativo de seu conhecimento – cada novo conhecimento se incorpora ao anterior. Diante da interação com o objeto do conhecimento, através de repetições, ocorre a assimilação do mesmo, alterando seus esquemas mentais e acomodando suas estruturas, originando assim um novo esquema. A evolução cognitiva se dá por meio da equilibração e desequilibração, indicando a mudança de estádio.

A memória passa a ocupar um lugar importante no processo de aprendizagem, pois é através dela que o sujeito adquire novas aprendizagens fazendo antecipações e conservando o conhecimento adquirido.
O construtivismo valoriza o agir daquele que aprende como elemento central da compreensão. Para aprender é necessário permitir que a inteligência aja sobre aquilo que se quer explicar. O aprendizado é um processo gradual no qual a criança vai se capacitando a níveis cada vez mais complexos do conhecimento, seguindo uma seqüência lógica de pensamento. Um mesmo objeto pode ser compreendido de diferentes maneiras, de acordo com o estádio de desenvolvimento em que a criança se encontra.

Os conceitos servem para diferenciar duas linhas de pensamento apresentadas pela psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem: o Comportamentalismo que diz que o indivíduo aprende se for estimulado – logo dá respostas; e o Interacionismo que diz que a aprendizagem provém de uma comunicação do ser com o mundo e que este vai organizando as informações e as integrando de acordo com as estruturas cognitivas de acordo com sua faixa etária.

Não poderíamos deixar de citar nesse estudo as idéias de Paulo Freire muito bem sintetizadas em sua obra Pedagogia da autonomia, sempre citada e sugerida em cursos de formação para professores e cursos de graduação em pedagogia.
Paulo Freire foi um educador que se dedicou à questão do analfabetismo. Freire acreditava que através da educação é que o homem poderia se libertar e transformar a sua realidade. Algumas idéias básicas de Freire: “ninguém educa ninguém, mas ao mesmo tempo, ninguém se educa inteiramente sozinho”. (FREIRE, 1998b) – toda educação deve levar o aluno a conhecer a realidade, o sujeito deve viver melhor, viver uma vida diferente. As pessoas se educam mediadas por determinado objeto de conhecimento que é a própria realidade.
Segunda idéia-chave: “não é possível ensinar sem aprender”. (FREIRE, 1998b). O educador deve conhecer a realidade do grupo que vai trabalhar.
Freire afirma que o educador deve se deixar educar. A aprendizagem só ocorrerá com o envolvimento de ambos, educador e educando, e pela postura que o primeiro adota em relação à realidade que o segundo lhe apresenta. Para ele não se educa transferindo conhecimento, mas sim criando possibilidades, aluno não é um depósito onde se remete informação.
Freire cita que ensinar exige reflexão crítica sobre a prática, onde se implica um pensar certo que envolve movimento dinâmico e dialético entre o fazer e o pensar sobre o fazer. “É pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática”. (FREIRE, 1998b).
Freire fez duras críticas à escola e ao ensino brasileiro dizendo serem estes uma vergonha, uma calamidade, já que a maioria das crianças da camada social mais baixa acabavam reprovando, fracassando em seus estudos e interiorizando esse fracasso como se fossem os únicos culpados pela sua incapacidade de aprender.
Paulo Freire vê a aprendizagem – o ato educativo – como a experiência na qual as pessoas modificam suas vidas, enxergam as coisas de forma diferente, enriquecem a maneira de encarar a si mesmas, os outros e a realidade circundante.

Embora nem Piaget, nem Vygotsky tenham pretendido elaborar uma pedagogia propriamente dita, suas contribuições provocaram mudanças significativas na prática pedagógica, e em especial na alfabetização.
Resumindo, nenhuma teoria é suficientemente ampla para dar conta de toda a complexidade dos processos que envolvem a aprendizagem. Devemos estar atentos a nossa prática, essa sim pode fazer a diferença.


3. Dificuldade na Aprendizagem da Leitura

Para ler o cérebro opera vários circuitos ao mesmo tempo: os que armazenam o vocabulário, a gramática, o discurso e a interpretação e cada uma destas funções tem lugar certo no cérebro.
Em Fonseca encontramos como se processa no cérebro a leitura oral:

“A leitura, um dos processos mais complexos da aprendizagem, compreende a discriminação visual de símbolos gráficos (grafemas) através de um processo de decodificação que se passa no segundo bloco, só possível com um processo de atenção seletiva regulado pelo primeiro bloco. Posteriormente, e ainda na mesma unidade, há que selecionar e identificar os equivalentes auditivos (fonemas) através de um processo de análise e transdução, de síntese e comparação, a fim de edificar a busca da significação (conjectura) e avaliar os níveis de compreensão latentes. A partir daqui, surgirá uma nova operação de equivalência que compreende a codificação, ou seja, a rechamada dos articulemas que serão executados e verificados na área de Broca, isto é, no terceiro bloco. Dos motoneurônios superiores frontais, a linguagem interior se transformará em linguagem expressiva, através da oralidade, ou seja, da produção de sons articulados”. (FONSECA, 1995, p. 165).

Todas essas funções caracterizam a aprendizagem da leitura. Um problema num desses blocos: 1º bloco (Cerebelo) – responsável pela atenção seletiva; 2º bloco (Lóbulo Parietal) – responsável pelo processo de decodificação ou 3º bloco (Lóbulo Frontal) – responsável pelo processo de codificação com certeza afetará a aprendizagem da leitura causando alguma dificuldade.

Em Charmeux (2000) entendemos que ler é uma atividade muito mais complexa do que aquilo que se acreditava ser simples até bem pouco tempo. Diz ainda, que existem duas razões que nos levam ao ato de ler: para procurar respostas ou para simples distração.

O ato de ler envolve três momentos distintos:

→ Decodificação: é o processo inicial da leitura que envolve a discriminação dos símbolos escritos com o som – é a capacidade de transformar letras em sons (ler) e sons em letras (escrever), vinculadas ao processo de análise e síntese;

→ Compreensão: faz a relação entre a palavra decodificada e o seu significado;

→ Análise Crítica: provoca a reação do leitor que reage às idéias impressas, sempre partindo de referenciais internos. Esta reação pode ser emocional ou intelectual.

Para compreender devemos primeiro decodificar, mas a leitura somente será considerada se houver compreensão. Sem compreender, a criança perde a motivação e o interesse. Portanto, dificuldade de leitura diz respeito ao desenvolvimento da aquisição da linguagem e compreensão da mesma e à medida que o aluno aprende, melhora o seu entendimento, diferenciando-se da dislexia onde o indivíduo já nasce com o distúrbio e mesmo ensinado continua errando.


4. Dislexia

A dislexia diz respeito a um transtorno caracterizado por uma dificuldade em reconhecer ou compreender as palavras escritas. É uma dificuldade duradoura da aprendizagem da leitura e aquisição do seu automatismo. Acontece em crianças inteligentes, escolarizadas e sem quaisquer perturbações sensoriais e psíquicas.

O educador não deve confundir a dislexia com preguiça ou indisciplina.

A dislexia é um transtorno de aprendizagem da leitura e da escrita que aparece desde a pré-escola, porém, é na fase da alfabetização que a dificuldade fica mais clara. A criança disléxica permanece por mais de dois anos sem avançar muito nos processos de alfabetização.

De acordo com o artigo: “A Dislexia” publicado no site www.10emtudo.com, as causas da dislexia são neurobiológicas e genéticas. Os disléxicos processam as informações em uma área diferente de seu cérebro.
Para entender melhor a dislexia, devemos conhecer como funciona de uma maneira geral o nosso cérebro. Cada parte é responsável por uma função. A área esquerda é responsável pela linguagem. Uma parte processa os fonemas, outra analisa palavras e outra reconhece as palavras. Para que o indivíduo possa ler essas partes devem trabalhar juntas. Para ler a criança deve reconhecer e processar os fonemas e relacionar as letras aos seus respectivos sons. À medida que essas habilidades vão se aprimorando outra função cerebral é ativada. É a memória deve ser permanente, de longa duração, para que de forma imediata, as palavras sejam reconhecidas. Quanto mais lemos, mais dominamos esse processo e mais fácil se torna essa aquisição.
O cérebro dos disléxicos não funciona dessa forma. Para ler, eles recorrem somente à área cerebral responsável pelo processamento dos fonemas. Apresentam dificuldade em diferenciar fonemas de sílabas, visto que a região responsável pela análise das palavras é inativa.
Quando tratada precocemente, há mais chances de se corrigir as falhas de conexão cerebral. Para o disléxico a leitura exige um grande esforço, pois cada palavra lida é como se fosse nova ou desconhecida.
Considerada uma alteração da aprendizagem, de modo geral, existem dois tipos de dislexia: a dislexia de desenvolvimento e a dislexia adquirida.
A dislexia de desenvolvimento refere-se a alterações no aprendizado da leitura e escrita com origem institucional, ambiental, referente à forma de aprendizado escolar. Quando isso acontece, ocorre diminuição da capacidade de leitura e conseqüentemente dificuldade no aprendizado da leitura. Déficits cognitivos, fatores neurológicos, prematuridade, baixo peso ao nascer, influências genéticas e ambientais também são consideradas causas da dislexia para alguns autores.
Na dislexia adquirida, o aprendizado da leitura e da escrita que foi adquirido normalmente, é perdido como resultado de uma lesão cerebral.

A dislexia também pode ser: central e periférica. Na primeira ocorre o comprometimento do processamento lingüístico dos estímulos – se altera o processo de conversão da ortografia para a fonologia (é onde a maioria dos disléxicos se enquadra, cerca de 67%). Na segunda, ocorre o comprometimento de análise perceptivo-visual, ocorrendo prejuízos na compreensão do material lido – reconhecimento das palavras. (CAPOVILLA & CAPOVILLA, 2004).

Alguns sinais denunciam a existência de dislexia: dificuldade em assimilar o que o professor ensina; tendência a confundir as letras; dificuldade em rimar palavras; reconhecer letras e fonemas; dificuldade em ler palavras pequenas e simples; dificuldade em identificar fonemas; soletrar; ler em voz alta e memorizar palavras.
De acordo com várias pesquisas, crianças com dislexia apresentam alterações auditivas e visuais referentes à orientação espacial, que podem desorganizar o desenvolvimento de representações fonológicas e ortográficas que são essenciais para o aprendizado da leitura.
No que diz respeito à dislexia, não existe um só tratamento adequado para todas as pessoas. A maioria enfatiza a assimilação de fonemas, desenvolvimento do vocabulário, melhoria da compreensão e da fluência na leitura. É aconselhável a leitura em voz alta para que o mediador possa intervir. Os exercícios exigem muita atenção e repetição.

Nunes, Buarque e Bryant (2003) afirmam:

Todas as crianças têm dificuldades na aprendizagem da leitura, que é uma atividade complexa. (...) No entanto, algumas crianças vencem essas dificuldades mais rapidamente e outras mais lentamente do que esperaríamos com base no seu nível de inteligência. A maioria dessas discrepâncias é pequena, mas em alguns casos chegam a ser consideráveis. A criança disléxica apresenta uma discrepância acentuada na direção desfavorável, ou seja, sua aprendizagem de leitura e escrita é muito mais lenta do que seria esperado a partir do seu nível intelectual. (NUNES, BUARQUE & BRYANT, 2003, p.10-11).

A criança disléxica apresenta auto-estima baixa e falta de autoconfiança por se considerar menos inteligente que os demais colegas. O apoio da família, dos colegas e o entendimento dos profissionais que trabalham com esse aluno colaborarão de certa forma para elevar estes aspectos.

Uma sugestão de intervenção seria a estimulação da conversão grafema-fonema e da consciência fonológica (capacidade do sujeito pensar e refletir conscientemente sobre a própria linguagem, identificar e discriminar sons) em pré-leitores, visto que muitos estudos demonstram sua eficiência no aprendizado da leitura.

De acordo com pesquisa realizada por Morais (1997) a inclusão da consciência fonológica no processo de diagnóstico dos profissionais que trabalham com dificuldades de aprendizagem deveria ser primordial, no entanto já se passaram quase dez anos e muito pouco se ouve falar no assunto e o que é mais sério, os professores, na sua maioria desconhecem o assunto. Dizem que até trabalham com rima, mas sem fundamentação nenhuma para um melhor desenvolvimento das atividades propostas.

Atualmente têm-se discutido muito sobre o melhor tratamento para sanar as dificuldades. Alguns autores defendem o estímulo das habilidades consideradas como pré-requisitos para o aprendizado da leitura, outros, baseando-se em pesquisas mais atuais concordam que a prática dos exercícios e atividades são muito boas para o desenvolvimento global do indivíduo, mas não interferem diretamente na aquisição da leitura. Sugerem, então, atividades relacionadas ao processamento fonológico da linguagem, através do lúdico – jogos e brincadeiras – para que a criança sinta prazer em ler e escrever.

A família também deve contribuir para que a criança seja uma futura leitora. Desde cedo os pais devem contar histórias, brincar com rimas, estimulando seus filhos.
Jogos de rimas, jogos com letras e desenhos, leitura de rótulos e propagandas, ajudam no desenvolvimento da consciência fonológica.
5. Estratégias para Aprendizagem da Leitura
No programa “Altas Horas”, exibido na madrugada de 15 de outubro de 2006, o professor Pasquale Neto trouxe dados que preocupam: somente 24% dos brasileiros lêem pequenos trechos com significação, os demais não entendem o que lêem - a educação no Brasil continua a ocupar os últimos lugares nas pesquisas.

A leitura é uma questão da escola como um todo e envolve todas as disciplinas – é necessário ler em qualquer matéria, não sendo especificidade da disciplina da língua portuguesa.
Os educadores deveriam promover nos alunos a utilização de estratégias que lhes permitam a interpretação e compreensão de textos da forma mais autônoma possível, sempre tendo especial cuidado com as situações descontextualizadas – as famosas “receitas”, pois nem sempre o que é positivo para um aluno pode o ser para outro. Nem sempre o que funciona com um grupo, funciona com outro.

Estratégia tem em comum com todos os demais procedimentos sua utilidade para regular a atividade das pessoas, à medida que sua aplicação permite selecionar, avaliar, persistir ou abandonar determinadas ações para conseguir a meta a que nos propomos (...) não detalham nem prescrevem totalmente o curso de uma ação (...) são suspeitas inteligentes, embora arriscadas, sobre o caminho mais adequado que devemos seguir. (VALLS apud SOLÈ, 1996, p.69).

Estratégia requer objetivo e autocontrole no sentido de que se avalie e supervisione a busca destes objetivos, modificando a ação se for necessário. Analisar os problemas que surgem encontrar as soluções para os mesmos de forma flexível caracteriza a mentalidade estratégica.

A leitura é um processo de interação entre o leitor e o texto. O leitor é um sujeito ativo que processa e examina os textos conforme a finalidade pré-estabelecida, guiando-se sempre por um objetivo. À medida que lê, o leitor constrói o seu próprio significado do texto.

Neste estudo falaremos mais sobre a perspectiva interativa presente no processo de leitura.

O modelo interativo citado em Solé (1996) não se centra exclusivamente no texto nem no leitor – o leitor utiliza simultaneamente seu conhecimento de mundo e seu conhecimento de texto para construir uma interpretação sobre aquele. Diz que para ler é necessário decodificar e utilizar-se de diferentes estratégias que levam à compreensão. Ao mesmo tempo, o leitor deve processar o texto de forma a construí-lo, levantando e verificando hipóteses, tendo pleno controle desta compreensão.
Sem menosprezar a seqüência - leitura→perguntas→exercícios – que talvez seja a única estratégia utilizada pelos professores para verificar a compreensão da leitura, citaremos neste estudo outras estratégias que contemplem não só a compreensão, como também ensinar aos alunos para que serve o que estão lendo e qual a verdadeira função da leitura.

Para que se compreenda o que se lê, os objetivos e as intenções são fatores determinantes. Na busca da compreensão controlamos a leitura parando de ler quando não entendemos e retomamos o ponto a fim de desfazer os obstáculos encontrados. Esta é uma estratégia que a leitura em voz alta, com o objetivo de verificar se o aluno lê bem, não permite que aconteça. Esta é a estratégia de controle da leitura.
A motivação para a leitura deve ser despertada, o entusiasmo que o educador apresenta ao enfocar as leituras contribuirá com certeza para o interesse do aluno. E é necessário também que esse interesse seja mantido ao longo da leitura, evitando atividades repetitivas, textos conhecidos ou sem variação, cuidados para que a prática da leitura em voz alta tenha um real significado, pois ela também é importante.
As leituras são diferentes, ninguém lê um jornal da mesma forma que lê uma história de suspense, por exemplo. Para ler devemos dominar a língua e suas nuances, exige concentração e memória e desejo de desvendar, descobrir, enfim, aprender.
Através da leitura nos comunicamos com toda humanidade de igual para igual, seja através do tempo, entrando em contato com autores que já não estão mais aqui, seja no espaço, entrando em contato com a cultura dos mais diversos países no momento real de seus acontecimentos.
Quando o educador permitir a existência destas condições será muito provável que a leitura se efetive de forma compreensiva.
O ensino das estratégias é um meio para que a criança possa ter acesso ao texto e assim, interpretá-lo. Mas isso só acontecerá se for capaz de integrar todas as estratégias. Fazer uso de um único método, além de ser exclusivo, não contribui para o progresso do aluno.

O ensino inicial da leitura de uma forma mais contemplativa, não restritiva deveria:

• Partir dos conhecimentos que a criança possui;
• Aprofundar as dúvidas da criança desenvolvendo sua consciência metalingüística;
• Aprofundar e aumentar seus conhecimentos possibilitando novas descobertas;
• As atividades devem ser significativas, utilizando-se todas as estratégias de forma integrada e simultânea;
• Utilizar-se da leitura e da escrita em atividades pertinentes na frente da criança funciona como um elemento de motivação contribuindo e instigando a criança em sua caminhada;
• O educador pode mostrar à criança que recursos utiliza para realizar a leitura de forma que progressivamente ela vá se apropriando destes conhecimentos.

Dentro da perspectiva cognitiva percebe-se o ensino da leitura como um processo de construção conjunta onde professor e aluno compartilham progressivamente de significados cada vez mais amplos e mais complexos. A função do professor é a de guiar o aluno na utilização de seu conhecimento prévio para estabelecer relações com aquilo que está lendo ou aprendendo. Deve-se desafiar o aluno de forma a propor atividades sempre um pouco além de suas capacidades sempre com a garantia de que o que foi aprendido foi interiorizado para que seja utilizado com autonomia.

Vários métodos são citados para serem utilizados como recursos de ensino da leitura. Citaremos alguns para ilustrar este estudo.
Em Solé (1996) aparece o método de Collins e Smith (1980) que apesar de pouco conhecido, propõe um interessante ensino progressivo em três etapas:

a) modelo – o professor serve de modelo para os alunos, demonstrando sua leitura em voz alta e os recursos que utiliza para compreendê-la, como levanta as hipóteses, como corrige os erros que porventura possam acontecer, as dúvidas que vão surgindo e os mecanismos que utiliza para resolvê-las, etc.
b) participação do aluno – o professor instiga o aluno a responder às perguntas que vão sendo dirigidas, fazendo desta forma com que o aluno utilize as estratégias para facilitar a compreensão dos textos que lhe são apresentados. É uma fase de transição onde o professor progressivamente passa a sua responsabilidade para o controle do aluno.
É uma situação semelhante à utilizada na metodologia da educação para pensar com pressupostos filosóficos, onde se levanta uma hipótese e realiza-se um debate a fim de chegar em uma determinada conclusão, confirmar ou descartar a hipótese.
c) leitura silenciosa – nesta fase os alunos realizam sua atividades de forma autônoma procurando utilizar-se dos recursos apresentados nas fases anteriores. Deve objetivar sua leitura, formular e confirmar ou não suas hipóteses, detectando e compensando as falhas de compreensão que venham a surgir no decorrer desta caminhada.

Encontramos também o método de instrução direta sugerida por Baumann (apud SOLÉ, 1996, p. 78) que divide a compreensão leitora em cinco etapas:
a) introdução – o professor explica os objetivos e de que forma os mesmos serão úteis no decorrer da leitura;
b) exemplo – exemplifica-se a estratégia, ajudando os alunos a entenderem o que vão aprender;
c) ensino direto – o professor dirige as atividades, mostrando, explicando e descrevendo as habilidades em questão;
d) aplicação dirigida pelo professor - os alunos colocam em prática aquilo que aprenderam, ainda sob a supervisão do professor que se necessário faz as intervenções, tornando a ensinar;
e) prática individual – nesta fase o aluno utiliza de forma autônoma e independente o que aprendeu aplicando a novos conteúdos.

Palincsar e Brown (apud Sole, 1996. p. 80) propõe o modelo de ensino recíproco onde o aluno deve assumir um papel ativo. Baseia-se em quatro estratégias: formular previsões; formular perguntas sobre o texto; esclarecer dúvidas e elaborar resumos.

A grande parte das propostas metodológicas foi elaborada com o intuito de melhorar o ensino da leitura, diminuindo, assim, o número de analfabetos funcionais que crescem a cada ano. Devemos ter cuidado com as propostas de métodos para não torná-las rigorosas e sistemáticas demais, não permitindo a flexibilidade tão necessária ao desenvolvimento individual de cada indivíduo. A utilização de um método deve respeitar a individualidade do aluno e deve apoiar-se no contexto para de fato contribuir potencialmente na aquisição da habilidade leitora.

Para utilizarmos estratégias mais adequadas dividimos os tipos de leitura em três comportamentos distintos de acordo com o artigo: “Todas as Leituras” publicado na revista Nova Escola de Agosto de 2006:

LER POR PRAZER: na leitura por prazer, o educador não pode fazer exigências a seus alunos. Cobrar resumos; fichas de leitura e expor o aluno às práticas de leitura em voz alta – para ver se o aluno está decifrando bem. Estas são práticas que nada tem a ver com prazer.
O educador deve transformar esse momento em troca. O aluno apresentará uma satisfação muito grande em poder compartilhar com seus colegas sobre o que leu. Promover debates e discussões com relação a um tema também é bastante prazeroso.

Uma estratégia excelente e que funciona muito com crianças até a 5ª série é ler um determinado livro, de preferência daqueles bem grandes e com muitas páginas até parar num trecho que provoque a curiosidade das crianças. A leitura continua no outro dia e também pára no ponto forte, sempre deixando as crianças extasiadas. Mas para que esse objetivo seja alcançado, é necessário que o professor conheça bem o livro para poder aguçar a curiosidade das crianças. Demonstrar que um livro grande não é chato e sim muito agradável é também o objetivo desta estratégia.
Outra boa alternativa é apresentar aqueles livros interativos onde a criança escolhe a página que quer seguir e acaba por fazer diversas leituras com diversos rumos em um único livro.
Explorar a imaginação fazendo com que as crianças escrevam um novo final, um final diferente, ou até mesmo ler o final e despertar para que criem o início ou motivem a leitura de um livro lendo o seu final são táticas infalíveis que funcionam com certeza.

A literatura infantil e infanto-juvenil está muito rica e motivadora nos dias de hoje. Se as crianças ou adultos não lêem, com certeza é porque não tiveram boas experiências com relação à leitura.
Durante a leitura o professor poderá fazer as intervenções e avaliações sugerindo aos alunos que leiam em voz alta, que façam a leitura silenciosa, que criem e transformem suas leituras, que façam comparações com outras leituras e, principalmente, que após terminarem a leitura de um livro, busquem outro livro para ler.
Para promover um contato mais intenso com a literatura escolhida, o professor deve desenvolver nos conteúdos as experiências que o livro escolhido poderá apresentar. Por exemplo, se o tema do livro é o medo, o professor pode explorar as situações que provocam medo nos alunos. Pode perguntar o que eles fazem para espantar seus medos; discutir o medo de cada um e buscar alternativas para superá-los. Outra boa alternativa é dramatizar os medos.
Hoje encontramos na literatura excelentes obras que tratam de temas específicos para desenvolver um bom trabalho com as crianças. Cabe ao educador buscar essas obras, ler e desenvolver seu trabalho.
Devemos ter cuidado também com a seleção das obras, para que todos possam expressar seus desejos e respeitar o gosto dos outros.
Algumas crianças não gostam dos contos de fadas e acabam por dar preferência a leitura de gibis. O professor deve respeitar o gosto da criança e aos poucos mostrar o quanto é legal ler esses contos. Por isso a leitura não deve se restringir ao material didático ou aos livros de conto. Quanto mais variada for a forma de se apresentar os textos às crianças, melhor leitora ela se tornará.

LER PARA ESTUDAR: com certeza é o tipo de leitura mais cobrado pelos professores. É cobrado, mas não é ensinado. O educador cita os pontos, marca o início e o fim das páginas a serem estudadas, mas não ensina ao aluno como fazê-lo.
Ao contrário dos livros de literatura, os livros didáticos são pouco atraentes, com muito conteúdo e pouca ilustração. Geralmente é tudo novo, sem sentido, desconectado da intensa vida das crianças e adolescentes.
Para se alcançar os objetivos é necessário ler e reler trechos, resumir, elaborar esquemas e sínteses na tentativa de facilitar o entendimento.
Para que se obtenha sucesso nessa meta tão árdua, o educador tem que ser um facilitador do caminho que o aluno tem por desbravar.

O educador deve:
→ Sugerir alguns temas para estudo para que os alunos possam escolher e não trazer um tema pronto porque tem que cumprir seus planos de estudo ou porque é conteúdo de determinada série;
→ Diagnosticar os conhecimentos prévios que o aluno possui sobre o tema;
→ Realizar uma pesquisa prévia selecionando e organizando as melhores fontes para a pesquisa;
→ Realizar uma leitura compartilhada acerca do assunto e nesse momento convidar os alunos para que leiam em voz alta;
→ Instigar sempre o aprofundamento dos estudos com perguntas ou estabelecendo relações com outros materiais como filmes, mapas, pinturas, ou relacionando com outras disciplinas, buscando a interdisciplinaridade;
→ Preparar o aluno para elaborar resumos, sínteses, apresentar os trabalhos através de seminários, palestras, exposições, etc.

O aluno deve se tornar responsável pelo seu conhecimento.

LER PARA SE INFORMAR: a informação está presente em toda a vida do indivíduo. Ler para se informar é atitude necessária para ser cidadão do mundo. Como tomar uma medicação, mesmo orientada pelo médico, sem ler a bula? Como assinar um contrato de locação sem ler seu conteúdo?
A informação é matéria-prima do trabalho escolar. É este tipo de leitura que favorece o desenvolvimento da postura crítica. Trabalhar com assuntos do dia-a-dia permite a verdadeira inserção na sociedade, possibilitando ao leitor que faça a sua defesa em pró daquilo que acredita ser verdade, permitindo flexibilidade, análise e revisão de conceitos pré-estabelecidos.
O educador deve auxiliar o aluno, orientando os diversos focos de interesse que o veículo escolhido apresenta. Se isso não acontecer de nada adiantará a informação se o conteúdo escolhido for sempre o mesmo.
O professor deve provocar, instigar a curiosidade, fazer relações com outros textos ou outros veículos de informação, promover debates e utilizar as reportagens para construção do saber.

6. Conclusão

O educador deverá avaliar-se continuamente, buscando na teoria respostas para a sua prática. Ou seja, o educador deve teorizar a sua prática e colocar em prática sua teoria. É isto que este estudo propõe: “Leitura: maneiras de ensinar, maneiras de aprender – uma possibilidade teórica que se efetiva na prática”.
O ato de ler e escrever possibilitou o armazenamento do conhecimento adquirido e a capacidade de transmiti-lo às novas gerações. Ler é condição de ser e estar no mundo.
É urgente que se esclareça ao aluno que se lê para a vida e não para a escola. Deve se desmistificar a idéia que os alunos têm de que a leitura e a escrita somente são necessárias na escola e durante o tempo que ali estiverem. Isso só será possível com uma mudança na prática do educador que deverá estimular seu aluno para que estabeleça uma relação de afeto positiva com o escrito e através da prática entenda o porquê de ler. Ler não é tarefa única da escola e a família deve receber orientações a este respeito.
Um dos maiores problemas no ensino da leitura que encontramos na escola é que ela não ensina o aluno a compreender o que lê, a entender seus textos. O professor está mais preocupado com a boa leitura de seus alunos, e, se estes conseguem realizar uma boa leitura oral ou responder às questões referentes ao texto lido, entendem que então compreendem os textos.
Outra dificuldade foi com relação ao conceito que o professor têm de leitura e não em quanto ao método utilizado.
As atividades escolares se apóiam na utilização do escrito – os alunos mais lêem e escrevem do que falam – porém, poucas são as situações de orientação com objetivo de ensinar a compreender.
Conclui-se, portanto que para reverter o quadro de reprovação e evasão escolar, bem como a diminuição do número de encaminhamentos apresentados é buscar as reais causas das dificuldades de aprendizagem determinando-as precocemente.
Todos os profissionais envolvidos com o processo de aprendizagem devem se questionar freqüentemente acerca de sua contribuição na aprendizagem dos alunos, verificando se os mesmos estão realmente aprendendo.
Quando o número de encaminhamentos é muito alto com certeza o problema não está na criança e sim na escola, no método utilizado ou na prática sem fundamento.
Fica clara a posição de diversos autores diante do fato de que a leitura não pode se restringir à etapa inicial de alfabetização, mas que deve ocorrer ano após ano de maneira cada vez mais aprofundada e que esta ocorra em todas as disciplinas, pois não utilizamos a leitura somente nas aulas de língua portuguesa.
Por outro lado devemos contar com o entendimento e esclarecimento dos diversos professores que ainda atribuem esta tarefa ao professor de português, ou ainda, acusam os professores de alfabetização de não cumprirem seus objetivos, deixando a desejar o ensino da leitura e da escrita, como se estas habilidades devam ser aprendidas somente no primeiro ano do ensino.

Para que todos possam aprender a ler seria necessário individualizar e adaptar o ensino da leitura. E sendo este um sistema complexo, não pode ser restrito a um determinado método. Quanto mais recursos forem utilizados, mais estratégias forem apresentadas, mais caminhos forem abertos, mais fácil será para a criança se apropriar desta habilidade. O educador deve contribuir para que seus alunos se transformem em leitores ativos e autônomos, que aprendam de forma significativa estratégias responsáveis por uma leitura eficaz e que saibam utilizá-las nos diversos contextos.
Este estudo deve suscitar outros olhares acerca do tema abordado, pois acreditamos não existir um único caminho, mas vários que se utilizados de forma partilhada contribuem na efetiva e eficaz construção do saber.
O fracasso escolar é uma questão ligada a preconceitos em relação à pobreza, às classes homogêneas, generalizações e rótulos, “domínio da turma”, sem falar na questão salarial, condições de vida e luta do professor que diz não ter tempo, nem dinheiro para se atualizar. É mais fácil perceber erros visíveis do que fazer um inventário completo das condições favoráveis para a aprendizagem.
A superação do fracasso escolar é tarefa pedagógica e, portanto, as lutas não devem se confundir, nem se misturar, uma complementa a outra, mas não justifica. E o sucesso dos educandos não depende só da escola, mas é tarefa dos pais e de uma sociedade inteira.
As dificuldades de aprendizagem podem ser variadas, mas a identificação e a busca de um diagnóstico preciso e de preferência multidisciplinar pode direcionar os profissionais na escolha da melhor intervenção.

Consideremos que todas as crianças, mesmo aquelas que apresentam dificuldades, distúrbios ou deficiência mental são capazes de aprender. Se ela não aprende, não procure nela o problema, modifique a sua prática, faça uso de abordagens diferentes, verificando se estão ou não dando certo. Só acerta, quem tenta. Não acredite em tudo que lhe dizem, para isso existe a pesquisa. Não existe receita pronta, muito menos o melhor método, nesta hora é melhor seguir seu coração. O ensino deve se moldar à criança e não o contrário. Construa e persiga seus objetivos e ofereça a seus alunos um ambiente favorável às aprendizagens.


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Andréia Santos da Costa Ferrão – Pedagoga – Educação Especial (PUCRS)
Psicopedagoga Clínica-Institucional (ESAB)
andreia_ferrao@hotmail.com



 
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