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AS RELAÇÕES FAMILIARES E A APRENDIZAGEM: UM OLHAR PSICOPEDAGÓGICO

FAMILY RELATIONSHIPS AND THE LEARNING: A
PSYCHOPEDAGOGICAL LOOK

Dulce Joana Weirich

 

RESUMO - Este estudo traz algumas considerações sobre a relevância das relações familiares bem como o reflexo dessas relações conflitantes neste espaço, no desenvolvimento de aprendizagem das crianças a partir de uma pesquisa de abordagem qualitativa cujo tratamento de dados realizou-se por análise de conteúdos. A pesquisa foi realizada com dois alunos de segunda série do ensino fundamental, pois, segundo a escola, apresentavam dificuldades na aprendizagem, também, foram envolvidos seus pais e a professora, totalizando sete sujeitos, assim denominados: os pais por P1 e P2; as mães por M1 e M2; os alunos por A1 e A2 e a professora por professora mesmo. O estudo baseou-se em sessões psicopedagógicas com todos os sujeitos no espaço clínico, entrevistas no início e final do ano letivo, observações no espaço escolar e orientação aos pais e à professora. Constatou-se que o ambiente familiar pode contribuir tanto de forma positiva quanto negativamente na vida escolar das crianças e que as relações conflitantes deste espaço são extremamente prejudiciais ao processo de aprendizagem. O que, no meu entender, serve de alerta para que os profissionais de educação estejam atentos no sentido de possibilitarem uma aproximação maior entre a escola e a família. Que os psicopedagogos percebam que, em muitos casos, o maior trabalho deve voltar-se à família e não à criança ou adolescente que apresenta o sintoma.
UNITERMOS: Relações familiares. Escola. Aprendizagem. Psicopedagogia.

SUMMARY -The present study brings some considerations over the importance of the family relationships as well as the reflection of these conflicting relationships in that setting over the children’s learning development as a result of a qualitative research, in which the data treatment was made by content analysis. The present research was carried with two students of the second grade of the Elementary School, for according to the school, they had shown learning difficulties, their parents and teacher were involved in the research as well, making total of seven subjects, called as follows: fathers P1 and P2; mothers M1 and M2; students A1 and A2; and their teacher just as Teacher. The present study was based upon psychopedagogical sessions with all the subjects in the clinic setting, interviews in the beginning and end of the school year, observation in the school setting and parents and teacher counseling. It has been revealed that the family environment may have both positive and negative influence over the children’s school life and the conflicting relationships in this setting are extremely harmful to the learning process. In my opinion, that serves as an alert to the education professionals so they become more attentive towards enabling an approach between the family and the school. The psychopedagogs must realize that in most cases their job must focus on the family and not on the child or teenager that shows the symptoms.

KEY WORDS: Family relationships. School. Learning. Psychopedagogy.
As relações familiares e a aprendizagem

No meu entender, as relações familiares podem ser definidas como o alimento necessário às primeiras aprendizagens, e como a chave da porta de entrada para todas as aprendizagens posteriores aos primeiros anos de vida de qualquer ser humano. Neste sentido partilho das idéias de Wallon ao afirmar que “a família é um grupo natural no sentido de que é para a criança, a questão ‘de ser ou não ser’ o facto de estar colocada pelo nascimento num grupo destinado a assegurar-lhe a alimentação, a manutenção, a segurança, a primeira educação”.
Tais idéias me fazem refletir sobre a relevância das relações familiares no processo do desenvolvimento e da aprendizagem das crianças, e a ingenuidade dos educadores que ao se depararem com uma classe de vinte ou trinta alunos, esperam que todos tenham as mesmas reações diante do processo do ensino e da aprendizagem.
Vejo essa questão como uma das principais causas de exclusão e rotulação dos alunos pelos professores e pela própria família que costumam comparar as crianças e esperam que todos aprendam da mesma forma. Fato este que provoca bloqueios em muitas crianças e adolescentes que passam a apresentar dificuldades diante das aprendizagens escolares, pois como diz Fernández “ao rotular, faz-se calar toda possibilidade. Os rótulos funcionam como sofisticados métodos de controle”.
Diante desta constatação questiono-me sobre o fato de que muitos professores esperam que todos os alunos de uma sala de aula aprendam da mesma forma e no mesmo espaço de tempo, quando sabemos que o primeiro e o principal grupo de relações sociais e de aprendizagens é a instituição familiar, entretanto sabemos que as famílias desses alunos são extremamente diferentes umas das outras...
Segundo Bassols e Michellon “a família é o primeiro ambiente social onde a criança desenvolverá suas características pessoais. A interação com os pais e, possivelmente, irmãos determinará seus futuros padrões de relacionamento”.
Wallon1, por sua vez afirma que é “em primeiro lugar no grupo familiar onde a criança ocupa um lugar determinado na constelação que constituem o conjunto dos pais e dos irmãos e irmãs. Faz aí a aprendizagem, útil ou viciosa, de certas relações e sentimentos sociais”. Se as primeiras aprendizagens forem positivas, certamente a criança estará mais propensa a obter sucesso em aprendizagens e relacionamentos posteriores e em outros grupos como, por exemplo, a escola.
Assim, constitui ilusão buscarmos turmas homogêneas nas escolas, pois cada aluno é também filho ou filha que está inserido no ambiente de um grupo familiar, bem ou mal estruturado com muitos ou poucos problemas; cada aluno traz consigo a sua bagagem, a sua história com marcas positivas e negativas, que permanecem com o indivíduo por toda sua existência. Para Almeida : “A criança, quando vai para a escola, leva consigo tanto os conhecimentos já construídos, quanto os prelúdios de sua vida afetiva. Tais aspectos se interpenetram dialeticamente, interagindo de maneira significativa sobre a atividade do conhecimento”.
Diante desta realidade consigo compreender melhor porque boa parte das crianças que obtém sucesso nas aprendizagens escolares são provenientes de famílias convencionais, que conseguem proporcionar uma base sólida para as crianças, um ambiente em que elas são capazes de encontrar modelos adultos a serem seguidos, pois como aponta Rego , “devido as características especificamente humanas torna-se impossível considerar o desenvolvimento do sujeito como um processo previsível, universal, linear ou gradual. O desenvolvimento está intimamente relacionado ao contexto sócio-cultural em que a pessoa se insere e se processa de forma dinâmica e dialética através de rupturas e desequilíbrios provocadores de contínuas reorganizações por parte do indivíduo”.
Pela relevância das relações familiares no processo do desenvolvimento e da aprendizagem, entendo como necessário e fundamental conhecer e compreender as relações das duas famílias que participaram da presente pesquisa. Porque o ser humano é o mais indefeso dos seres ao nascer, que só se torna realmente humano através da aprendizagem que adquire por meio das interações significativas com adultos, já que como afirma Rubinstein “a função do adulto para com a criança, além da proteção e dos cuidados, é a de ‘sustentar’ no sentido de pulsionar a viver e a continuar vivendo. É o adulto que faz a transmissão cultural. A expectativa dos adultos significativos também influi na constituição psíquica do aprendiz”.
Neste sentido, foram selecionadas partes das entrevistas, que tratam do cotidiano das relações familiares e que considero fundamentais ao processo do desenvolvimento e da aprendizagem das crianças.
Entre essas partes estão as comparações, os elogios, as críticas, a confiança, o diálogo, a compreensão, a valorização das idéias e a maneira como os pais acompanham o desenvolvimento da aprendizagem dos filhos, porque o ambiente e os adultos com os quais a criança convive em seus primeiros anos de vida são imprescindíveis para a vida posterior. Vale dizer que para Wallon1 “o indivíduo é apenas um elemento, um detalhe sem significação própria. É ao conjunto a que pertence que deve tudo o que vale, onde é mais ou menos permutável”.
Segundo estudos de Vygotsky , a estrutura fisiológica humana, aquilo que é inato, não é suficiente para produzir o indivíduo humano, na ausência do ambiente social. As características individuais (modo de agir, de pensar, de sentir, valores, conhecimentos, visão de mundo etc.) depende da interação do ser humano com o meio físico e social. O Autor chama atenção para a ação reciproca existente entre o organismo e o meio e atribui especial importância ao fator humano presente no ambiente.
Como os primeiros adultos que interagem com a criança normalmente são os pais, considero relevante conhecer um pouco mais sobre as relações familiares, para poder compreender melhor a relação dos vínculos existentes e as causas das dificuldades de aprendizagem de A1 e A2, bem como das crianças de modo geral, pois segundo Maldonado , “o contexto onde vive, as pessoas com quem convive, suas experiências de vida, certas predisposições, recursos e características pessoais tudo isso contribui para o seu modo de ser”.
Dentro desse contexto, por meio das entrevistas e destacando os principais pontos na relação pais e filhos, já mencionados anteriormente, bem como reações e atitudes percebidas nas intervenções psicopedagógicas, passo a relatar alguns conflitos familiares existentes nas duas famílias que participaram do presente estudo, com interferência na aprendizagem de A1 e A2.
Ao serem questionados com relação a comparação dos filhos com outras crianças, M1 entende que comparar não é bom ao assim se expressar: Eu, na minha opinião, acho que ele tá sendo um pouco prejudicado. “Eu não gosto muito de comparação assim, com outras crianças, não é bom comparar. P1 concorda com M1, quando assim se expressa: Ele está sendo prejudicado, pelo motivo de alguém tá elogiando outras pessoas e não ele”.
A importância de o casal falar a mesma linguagem na educação dos filhos e evitar as comparações é um fato positivo para que a criança possa se sentir mais segura e confiante em relação aos pais que são os principais modelos do princípio de suas vidas. Isto é especialmente importante, pois como lembram Bassols e Michellon3 “a capacidade da criança de ligar-se afetivamente aos pais e percebê-los como figuras que lhe transmitam segurança permite-lhe explorar o mundo à sua volta e retornar para a família sempre que lhe surgirem dificuldades que lhe gerem ansiedade”.
Ainda com relação as comparações considero importante trazer as falas do outro casal que fez parte desta pesquisa e como os pais muitas vezes prejudicam inconscientemente a aprendizagem dos filhos por meio de falas e atitudes. Ao ser questionado sobre as comparações do seu filho com outras crianças, P2 disse: Eu acho que é um estímulo pra ele, porque ele vê o outro que tá, tá fazendo bem feito, ele também procura fazer.
Já a esposa, M2 diz: Eu acho que é prejudicado, porque eu acho assim que nenhuma criança é igual a outra, cada um é cada um, tem as suas dificuldades. O filho desse casal A2, ao ser questionado sobre o mesmo assunto assim se expressa: Isso me atrapalha pra mim aprender.
Ao perguntar para A2 porque as comparações lhe atrapalham, ele diz: “É por causa igual se a gente tá fazendo um tema né, a gente tá fazendo um tema assim, né, a mãe fala, [...] daí a mãe fala pra nós, oh! O caderno do outro amigo, do amigo, as letras tá mais bonita do que a tua, daí isso me atrapalha”. Lembro-me da expressão de tristeza nos olhos de A2 ao falar da comparação.
Assim, evidencia-se nas falas que além de o pai de A2 ser favorável às comparações que na percepção do filho lhe prejudicam, o casal tem opiniões diferentes com relação ao assunto; percebe-se também através da expressão e da fala que A2 tem sido vítima das comparações.
Geralmente comparamos as crianças com outras que se saem melhores e isso gera um sentimento de inferioridade naquele que está sendo comparado que, muitas vezes, passa a acreditar que ele não é capaz de obter sucesso naquilo que faz, e pela minha experiência como psicopedagoga percebo que grande parte das crianças que apresentam problemas na aprendizagem, demonstra muita dificuldade em acreditar nas suas próprias capacidades.
Acerca das comparações, Morais assinala que “a experimentação do insucesso, aliada a comparações feitas pelos pais e professores com irmãos ou colegas que não apresentam dificuldade para aprender, terminam transformando as crianças com distúrbios de aprendizagem em sujeitos inseguros, tímidos e sem motivação para qualquer atividade escolar”.
Pela experiência em atendimentos a alunos com dificuldades na aprendizagem, percebo que toda criança sente e percebe quando os pais apostam em sua capacidade para aprender, e isso é extremamente importante para que ela possa acreditar em si mesma e assim persistir na realização dos seus objetivos.
A contribuição dos pais nesse sentido é fundamental porém conforme Maldonado8, “quando os pais constroem altas expectativas para si, passam inevitavelmente a exigir muito da criança [...] que tenham rendimento escolar excelente, que se sobressaia em tudo que faz para ser melhor que os outros etc”. No entanto, o nível de expectativa dos pais deve ter um equilíbrio para não prejudicar o processo de aprendizagem da criança, por estar cobrando dela, algo além de sua capacidade.
A harmonia nas relações do grupo familiar também é fundamental para proporcionar um ambiente onde exista amor, afeto e estímulos, ambiente este propício ao processo de desenvolvimento da aprendizagem. Neste sentido Golbert e Moojen destacam que “fatores como qualidade da nutrição e estimulação, clima emocional da família, influências sócio-culturais e afetividade dos pais podem favorecer ou reduzir a capacidade da criança para aprender”.
As críticas e os elogios também podem influenciar de forma negativa ou positiva na aprendizagem de crianças, adolescentes e até mesmo de adultos. Maldonado8 lembra que “a critica freqüente é responsável pela deterioração do desempenho, seja em que idade for, especialmente em momentos de nossa vida em que estamos mais vulneráveis, como por exemplo, quando iniciamos alguma atividade”.
Por essa razão, que os primeiros anos escolares nos quais a criança está iniciando sua aprendizagem formal, são como um termômetro que determina o sucesso ou fracasso dos anos posteriores; se a criança se dá bem todas as pessoas das suas relações e ela própria passam a acreditar e investir cada vez mais em suas capacidades.
Segundo Golbert e Moojem10, “é ali, nas aulas do 1º ano primário, que a criança é definida como bom aluno, lento, rápido, com problemas, sem problemas. É ali que ele vai receber a ‘primeira etiqueta’, que terá conseqüências no resto de sua escolaridade”.
A criança que não consegue um bom desempenho nesse espaço de tempo, geralmente não conta com o apoio e a compreensão das pessoas que convivem com ela. Muitas vezes passa a ser alvo de críticas por parte dos colegas, professores e da própria família, no momento que mais precisa de apoio e compreensão. Neste sentido considero significativas as palavras de Maldonado8, ao afirmar que “em graus mais intensos, a atitude crítica e depreciativa faz com que a criança acabe bloqueando de modo permanente muitas de suas potencialidades, prejudicando seu desenvolvimento e contribuindo para que ela passe a não acreditar em si própria”.
Diante desta constatação percebo que os dois alunos que participaram da pesquisa, sofriam de criticas constantes por conseqüência do fraco desempenho nas aprendizagens escolares, o que gerava medo, insegurança e desmotivação.
O medo de errar estava muito presente em A1, nas primeiras sessões em que o atendi na clínica, tanto que chegava a estremecer e encolher o corpo quando cometia algum erro na escrita, leitura, em algum desenho que estivesse fazendo ou até mesmo na hora do jogo, além de se expressar dizendo: Eu não consigo, não sei se vai ficar bonito... Meu Deus! Eu errei.
No primeiro contato com M1, mãe deste sujeito, esta relatou: “A1 não gosta de ir para a escola, ele chegou a dizer pra vó que se ele soubesse que teria que ir para a escola não teria saído da barriga da mãe. A1 não é preocupado com os deveres da escola, se eu não cobro o tema ele não faz”. Em continuação a sua fala, referindo-se ao comportamento de A1 com relação a escola, M1 relata: “Na metade do ano passado em diante começou a se queixar de dores no peito, nos braços e na cabeça. Levamos ele no pediatra, foram feitos alguns exames e nada foi constatado. Depois disso ele só se queixa de dor de cabeça. Acho que é desculpa porque a Escola já chegou a mandar ele pra casa algumas vezes devido as suas queixas, e quando ele chega em casa larga a mochila e logo começa a brincar, não se queixando mais de dor”.
A professora, em uma conversa informal na mesma época ao se referir a esse aluno relata: A1 não demonstra motivação e interesse, eu preciso estar sempre em cima, sempre dizendo, vamos A1, faz! Muitas vezes ele se queixa de dor de barriga e, principalmente, dor de cabeça. Segundo Bassols e Michellon3 “a recusa a ir à escola pode estar associado a transtornos de ansiedade de separação, aparecendo em até 80% dos casos. Nesses casos são comuns as queixas físicas como dor de barriga, falta de ar, dor de cabeça etc. Com tais queixas, as crianças tentam convencer os pais de que devem ficar em casa, o que muitas vezes acaba ocorrendo”.
Penso que os problemas nas relações da família de A1 e o medo de errar na escola, contribuíam para que o menino tivesse tais atitudes, pois após algumas sessões de atendimento a esse menino, aos seus pais e à Professora o medo de errar diminuiu, bem como as queixas das dores físicas.
Por isso destaco dois pontos da história de vida desse sujeito, que considero relevantes: um é o fato de que o pai, P1 bebia muito na época, o que deixava a mãe, M1 nervosa, preocupada e ansiosa, sendo que a mesma chegou a pensar algumas vezes na separação, conforme podemos perceber em sua fala quando diz: “Já tentei me separar dele algumas vezes, porque acho que a convivência com um pai bêbado não é bom para os filhos, mas ele não aceita a separação”.
As crianças são muito sensíveis sabem perfeitamente quando existe algum problema que ameaça a família. Neste momento cada um reage de uma maneira, algumas crianças, recusam-se a ir à escola porque entendem que permanecendo em casa poderão evitar algum problema maior. Outros ficam com a motivação e concentração prejudicadas porque estão na sala de aula apenas com o corpo presente, sendo que o pensamento está ocupado com os problemas familiares. Esta parecia ser a reação de A1.
Diante dos problemas que envolviam a família de A1, M1, como quase todas as mães fazem, tentava aliviar um pouco a tensão do lar, com o objetivo de melhorar o relacionamento e evitar o sofrimento para seus filhos. Nesse sentido fazia alguns sacrifícios como esse relatado por ela, quando diz: “Nos domingos, às vezes, eu vou junto no futebol, mesmo não gostando, para poder sair um pouco de casa e para que os meus filhos estejam um pouco mais com o pai”.
A situação conflitante em que vivia M1 e a influência da própria educação que recebeu de seus pais que eram muito rígidos, a deixavam muito nervosa e prejudicavam sua relação com A1, conforme ela própria mencionou por diversas vezes e como podemos perceber no segundo depoimento: “ultimamente não tenho muita paciência, mas eu não cobro perfeição do meu filho porque sei que ninguém é perfeito, e também porque a minha mãe sempre me cobrou perfeição e isso me fazia sofrer”.
É de conhecimento amplo que os pais sempre acabam reproduzindo de alguma maneira a educação que receberam de sua família de origem, isso parecia estar acontecendo com M1, pois ao mesmo tempo que critica a educação rígida de seus pais, revela que também age com rigidez em algumas situações com seus próprios filhos, como podemos perceber nesta fala ao ser questionada sobre a crítica e o elogio, quando se refere a A1: “[...] se eu corrigir ele gritando, xingando ele não vai me escutar, nem vai da bola porque ele vai ficar né, que eu sei porque eu já fiz isso, cansei de fazer isso, só que agora eu tô tentando né, ter mais paciência, ter mais [...] se dedicar mais pra vê se ele [...] porque quanto mais eu xingar ele menos ele me escuta. Se eu tiver paciência com ele, e disser não você tá errado aqui você tem que fazer assim, daí ele me escuta, e se não ele não me escuta, ele nem dá bola pro que eu tô falando, ele fica olhando para outro lugar, ele fica olhando pras paredes, ele fica [...] ele não me escuta se eu gritar,
se eu falar com paciência ele me escuta”.
Neste clima conflitante em que vivia A1 quando iniciei o trabalho com esta família, devido ao problema de alcoolismo do pai e a ausência do mesmo na educação dos filhos, somado ao nervosismo, a ansiedade e falta de paciência da mãe, contribuíam, no meu entender, ao estado de apatia e medo de errar de A1, no espaço escolar.
Como mencionei anteriormente, diante de situações conflitantes na família as crianças reagem de diferentes maneiras e, geralmente, o reflexo dessas reações se manifesta na escola. Para Garbar e Theodore “uma criança pode querer passar uma mensagem seja mexendo-se muito ou, ao contrário, ficando encolhida num canto, ou ainda fazendo xixi na cama ou ficando doente”.
Neste sentido, enquanto A1 apresentava queixas de dores físicas, apatia e desmotivação com relação à aprendizagem escolar, A2 reagia de forma agressiva e indisciplinada no espaço da sala de aula com o propósito de chamar a atenção, ou como um pedido de socorro, esta era a atitude do aluno no início de 2004 e no ano anterior, segundo informações da Escola. Conforme Molina-Loza “uma sabedoria inconsciente leva a criança a buscar todo tipo de artimanha para atrair a atenção dos seus pais. O problema escolar é, na minha opinião, a mais importante delas. A criança percebe que suas dificuldades escolares afetam fortemente os seus pais e que esse é um meio seguro de obter um contato direto com eles. A criança que se sente insegura e abandonada recuperará, ao ser repreendido, o seu sentimento de presença e proximidade com os pais”.
Era exatamente desta maneira que eu percebia A2, inseguro e abandonado. Os conflitos familiares estavam presentes e influenciavam a vida escolar do menino que demonstrava atitudes e comportamentos no sentido de chamar a atenção da professora e dos colegas.
No primeiro contato com a Professora no início do ano letivo ela assim se referiu ao aluno: “Ele tem bastante dificuldade na aprendizagem, sempre está fazendo alguma brincadeira para chamar atenção, como bater com o lápis na carteira, sentar no chão e outras. Ele também briga e mente muito”.
Às vezes a criança age desta maneira para pedir socorro, já que não encontra outra saída para conseguir a atenção dos pais. Esta parecia ser a realidade de A2, quando o conheci. Para a Autora mencionada12 “o comportamento problemático do filho pode não ser mais do que a única forma que ele encontrou de manifestar sua angústia e seu pedido de socorro”.

Na primeira visita à Escola ao conversar com a Orientadora Educacional, a mesma informou-me que a família de A2 não é muito comprometida com a vida escolar do filho, e que a mãe culpava a Escola e as professoras pelas dificuldades do mesmo na aprendizagem. Em algumas conversas informais com a mãe M2, ela disse que em casa, com ela o menino não escreve errado e faz a letra bonita, deixando transparecer, de certa forma, que o ambiente da escola não é bom.
A falta de comprometimento por parte dos pais de A2 que é filho único, logo ficou evidente, pois eles nunca tinham “tempo” disponível para o filho. Praticamente toda a semana era necessário entrar em contato com eles para combinar um horário e pedir encarecidamente que trouxessem o menino para as sessões e, mesmo assim, algumas vezes ele não comparecia. Na escola A2 contava para a professora que chorava porque os pais não o levavam para a clínica e que ele queria ir, pois gostava das atividades que lá realizava.
Também foi possível perceber desde o princípio que havia certo desequilíbrio na relação entre o casal M2 e P2. Geralmente quem trazia o menino para as sessões era o pai que, muitas vezes, falava da dificuldade de educar o filho devido a divergência de idéias e atitudes entre ele e a esposa, com relação a educação. Exemplo disso é o depoimento a seguir: É difícil educar o A2 porque a M2 é muito rígida, porque ela teve uma educação muito rígida. Ele não pode fazer nada, não pode sair de casa sozinho. Eu já sou diferente.
A influência que herdamos mediante a educação que recebemos dos nossos pais é muito forte. Mesmo contra vontade e de forma inconsciente muitas mães e pais acabam reproduzindo de alguma forma a educação que receberam de seus pais.
Esta divergência de idéias com relação a educação dos filhos, muitas vezes gera conflitos entre os casais, principalmente quando há uma grande diferença cultural das famílias de origem e isso acontece muito comumente em nossa região em que a diversidade de culturas e valores é considerável.
Além das divergências de idéias entre o casal existe um outro agravante que, no meu entender, tem prejudicado a aprendizagem de A2. Refiro-me a relação entre o filho real e o filho idealizado pelo casal.
Todo pai e toda mãe antes mesmo da concepção e durante a gestação elaboram a imagem do filho que consideram ideal, e fazem inúmeros planos para ele. Ao nascer, nem sempre o filho real que vem ao mundo identifica-se com o filho projetado pelos pais, aceitar esse filho pode ser muito difícil porque corresponde à morte do filho idealizado.
Com relação a esse assunto, Garbar e Theodore11 destacam que os pais, “sonham com o filho ideal e temem ao pensar que, talvez, ele seja o oposto de tudo o que imaginaram. Por vezes chegam a um conflito latente levantado pela contradição entre o desejo de ter um filho e o de livrar-se dele”.
O casal P2 e M2 passou por uma experiência parecida. Os problemas iniciaram ainda durante a gravidez, período em que ocorreu uma ameaça de aborto e depois M2 teve que permanecer praticamente o tempo todo em repouso e aos sete meses de gestação nasceu A2, com alguns problemas conforme podemos perceber na fala de P2: Ele nasceu de sete meses e ficou na encubadora. Tinha as perninhas tortas, teve que fazer fisioterapia e usar calçado especial.
M2 ao falar sobre o assunto assim se expressa: O problema que eu tive na gravidez é um problema genético da família do meu marido. A2 nasceu fraquinho, sempre foi fraquinho. Aprendeu a caminhar com quase dois anos. Começou a ter convulsões com sete anos e então passou a tomar Tegretol, mas ele começou a ter alergia, então o medicamento foi trocado por Gardenal que ele toma até hoje.
Esses medicamentos são receitados para pessoas que sofrem de convulsões e geralmente causam algumas reações que podem interferir no processo de aprendizagem. Para Schwartzman “o fenobarbital (Gardenal), barbitúrico muito utilizado em casos de manifestações convulsivas, pode causar ou exacerbar dificuldades de atenção – concentração”.

Para A2 o maior problema do medicamento é a reação alérgica que se manifesta, geralmente, uma vez por semana, sendo responsável por um mal estar muito grande que de alguma maneira interfere na produção escolar do menino. Porém, com relação ao estado físico e mental não existem maiores problemas. A2 está atualmente com dez anos de idade, é um menino perfeito e possuidor de um grande potencial.
No entanto, parece que o filho perfeito idealizado por P2 e M2 antes do nascimento, morreu no dia em que nasceu um menino com alguns problemas que foram praticamente todos superados com o tempo, mas o que permaneceu vivo na memória desse pai e dessa mãe foi o diagnóstico inicial dos médicos. Foi possível perceber tal diagnóstico em diversos momentos nas falas destes pais para justificar as dificuldades na aprendizagem, como na fala P2: “Quando ele nasceu os médicos disseram que ele não ia nem sobreviver! E se sobrevivesse não iria caminhar porque tinha as perninhas tortas”.
Falas parecidas com essa também eram pronunciadas com freqüência por M2. Desta maneira, os pais demonstravam estar satisfeitos com os progressos no desenvolvimento e na aprendizagem do filho, aceitando como algo perfeitamente normal as dificuldades na aprendizagem escolar, já que, segundo os médicos A2 nem “era para sobreviver” e muitos menos iria poder caminhar.
Diante dessa realidade percebo que a dificuldade deste sujeito na leitura, na escrita e na matemática, acontece, em grande parte, porque seus pais não conseguem acreditar em sua capacidade, entendem que tudo o que o filho já aprendeu é lucro diante da “profecia” dos médicos.
Neste sentido considero significativas as palavras de Falsarella quando lembra que “uma imago parental positiva oferece sustentação, isto é, prepara a criança para lidar com situações adversas, fornece-lhe um arsenal de recursos internos de instrumentos que lhe possibilitam enfrentar situações inesperadas. É como se tivesse dentro de si um porto seguro onde ancorar em meio às tempestades. Na escola, confiança e segurança tornam a criança mais produtiva e mais criativa para enfrentar as exigências escolares de relacionar-se com a instituição, com os colegas e professores e com a aprendizagem”.
Pela minha experiência como psicopedagoga, pude perceber que quando os pais que são os primeiros adultos que interagem com a criança e servem de modelos para elas, não conseguem apostar na capacidade do filho este, possivelmente, poderá ter dificuldade para acreditar em sua própria capacidade, e por conseqüência apresentará dificuldades na aprendizagem escolar.
Quando a criança percebe que seus próprios pais não apostam em sua capacidade, ela normalmente passa a ter uma imagem fragilizada de si própria, o que pode prejudicar de forma considerável sua aprendizagem. Para Tinoco , “quando portadora de um ego fragilizado, a criança tem dificuldade em dedicar-se à aprendizagem, pois toda sua energia está direcionada a resolver os conflitos de sua vida interior”. Essa é, no meu entender, a situação de A2.
Na verdade o menino não consegue livrar-se do rótulo que recebeu ao nascer por meio do diagnóstico médico. Seus pais continuam presos às palavras do médico e não se deram conta que o filho superou praticamente todos os problemas que possuía ao nascer. Segundo Garbar e Theodore11 “algumas vezes, a criança fica presa entre missões contraditórias, que lhe chegam de vários lados, injunções inconciliáveis às quais ela só pode responder por meio de sintomas graves”.
E, pensando nas possibilidades e conseqüências de se rotular as crianças tanto na família quanto na escola , penso ser extremamente importante buscarmos viabilizar uma parceria entre essas duas instituições que, no meu entender, são as mais importantes na formação do ser humano.
REFERÊNCIAS

. WALLON, H. Psicologia e educação da criança. Lisboa: Editorial Vega , 1979. p. 166, 175, 189.

. FERNÁNDEZ, A. Os idiomas do aprendente: análise das modalidades ensinantes em famílias, escolas e meios de comunicação. Porto Alegre, Artmed Editora, 2001. p. 33.

. BASSOLS, A. M. S. e MICHELLON, M. N. Transtornos de ansiedade. In: SUKIENNIK, P. B. O aluno problema: transtornos emocionais de crianças e adolescente. Porto Alegre: Mercado aberto, 2000. p. 385, 388.

. ALMEIDA, A. R. S. A emoção em sala de aula. 2. Ed. São Paulo: Papirus, 2001. p. 13.
. REGO, T. C. Vygotsky: Uma perspectiva histórico-cultural da educação. 12. Ed. Petrópolis RJ: Vozes, 2001. p. 58.
. RUBINSTEIN, E. O estilo de aprendizagem e a queixa escolar: entre o saber e o conhecer. Psicopedagogia: Revista da associação Brasileira de Psicopedagogia – N.º 60. 2002. p. 80.

. VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. 6. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

. MALDONADO, M. T. Comunicação entre pais e filhos. 25. Ed. São Paulo: Saraiva, 2000. p. 13, 20, 70.

. MORAIS, A. M. P. Distúrbios da aprendizagem: Uma abordagem Psicopedagógica. São Paulo: EDICON, 1997. p. 86.

GOLBERT, C. S., MOOJEN, S. M. P. Dificuldades na aprendizagem escolar. In: SUKIENNIK, P. B. O aluno problema: transtornos emocionais de crianças e adolescente. Porto Alegre: Mercado aberto, 2000. p. 83, 88.

11 GARBAR, C. e THEODORE, F. A Família Mosaico: as novas contribuições familiares. São Paulo: AUGUSTUS, 2000. p. 49, 52, 39.

12 MOLINA-LOZA, C. A. As relações família/escola e professor/aluno e suas implicações patológicas. In: SUKIENNIK, P. B. O aluno problema: transtornos emocionais de crianças e adolescente. Porto Alegre: Mercado aberto, 2000. p. 51, 56.

13 SCWARTZMAN, J. S. Distúrbios escolares. In: SUKIENNIK, P. B. O aluno problema: transtornos emocionais de crianças e adolescente. Porto Alegre: Mercado aberto, 2000. p. 254.

14 FALSARELLA, A. M. O papel do adulto em situações de aprendizagem. Psicopedagogia: Revista da associação Brasileira de Psicopedagogia – N.º 61. 2003. p. 54.

15 TINOCO, D. H. Distúrbios afetivo-emocionais e sua interferência na aprendizagem escolar: uma visão psicanalítica. [Dissertação]. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica, 1990.

Dulce Joana Weirich – Pedagoga e Psicopedagoga; Mestre em Ciências da Saúde Humana pela UnC – Universidade do Contestado de Concórdia Santa Catarina.

Correspondência: Rua Orestes Farina, 205 Apto. 3, Concórdia Santa Catarina. CEP: 89700-000 – Fone (49) 3442-3872 E-mail: dulcejoanaw@yahoo.com..br

 



 
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