AS RELAÇÕES FAMILIARES E A APRENDIZAGEM: UM OLHAR PSICOPEDAGÓGICO
FAMILY RELATIONSHIPS AND THE LEARNING: A
PSYCHOPEDAGOGICAL LOOK
Dulce Joana Weirich
FAMILY RELATIONSHIPS AND THE LEARNING: A
PSYCHOPEDAGOGICAL LOOK
Dulce Joana Weirich
RESUMO - Este estudo traz algumas considerações sobre a
relevância das relações familiares bem como o reflexo dessas relações
conflitantes neste espaço, no desenvolvimento de aprendizagem das
crianças a partir de uma pesquisa de abordagem qualitativa cujo
tratamento de dados realizou-se por análise de conteúdos. A pesquisa
foi realizada com dois alunos de segunda série do ensino fundamental,
pois, segundo a escola, apresentavam dificuldades na aprendizagem,
também, foram envolvidos seus pais e a professora, totalizando sete
sujeitos, assim denominados: os pais por P1 e P2; as mães por M1 e M2;
os alunos por A1 e A2 e a professora por professora mesmo. O estudo
baseou-se em sessões psicopedagógicas com todos os sujeitos no espaço
clínico, entrevistas no início e final do ano letivo, observações no
espaço escolar e orientação aos pais e à professora. Constatou-se que o
ambiente familiar pode contribuir tanto de forma positiva quanto
negativamente na vida escolar das crianças e que as relações
conflitantes deste espaço são extremamente prejudiciais ao processo de
aprendizagem. O que, no meu entender, serve de alerta para que os
profissionais de educação estejam atentos no sentido de possibilitarem
uma aproximação maior entre a escola e a família. Que os psicopedagogos
percebam que, em muitos casos, o maior trabalho deve voltar-se à
família e não à criança ou adolescente que apresenta o sintoma.
UNITERMOS: Relações familiares. Escola. Aprendizagem. Psicopedagogia.
SUMMARY -The present study brings some considerations over the importance of the family relationships as well as the reflection of these conflicting relationships in that setting over the children’s learning development as a result of a qualitative research, in which the data treatment was made by content analysis. The present research was carried with two students of the second grade of the Elementary School, for according to the school, they had shown learning difficulties, their parents and teacher were involved in the research as well, making total of seven subjects, called as follows: fathers P1 and P2; mothers M1 and M2; students A1 and A2; and their teacher just as Teacher. The present study was based upon psychopedagogical sessions with all the subjects in the clinic setting, interviews in the beginning and end of the school year, observation in the school setting and parents and teacher counseling. It has been revealed that the family environment may have both positive and negative influence over the children’s school life and the conflicting relationships in this setting are extremely harmful to the learning process. In my opinion, that serves as an alert to the education professionals so they become more attentive towards enabling an approach between the family and the school. The psychopedagogs must realize that in most cases their job must focus on the family and not on the child or teenager that shows the symptoms.
KEY WORDS: Family relationships. School. Learning. Psychopedagogy.
SUMMARY -The present study brings some considerations over the importance of the family relationships as well as the reflection of these conflicting relationships in that setting over the children’s learning development as a result of a qualitative research, in which the data treatment was made by content analysis. The present research was carried with two students of the second grade of the Elementary School, for according to the school, they had shown learning difficulties, their parents and teacher were involved in the research as well, making total of seven subjects, called as follows: fathers P1 and P2; mothers M1 and M2; students A1 and A2; and their teacher just as Teacher. The present study was based upon psychopedagogical sessions with all the subjects in the clinic setting, interviews in the beginning and end of the school year, observation in the school setting and parents and teacher counseling. It has been revealed that the family environment may have both positive and negative influence over the children’s school life and the conflicting relationships in this setting are extremely harmful to the learning process. In my opinion, that serves as an alert to the education professionals so they become more attentive towards enabling an approach between the family and the school. The psychopedagogs must realize that in most cases their job must focus on the family and not on the child or teenager that shows the symptoms.
KEY WORDS: Family relationships. School. Learning. Psychopedagogy.
As relações familiares e a aprendizagem
No meu entender, as relações familiares podem ser definidas como o alimento necessário às primeiras aprendizagens, e como a chave da porta de entrada para todas as aprendizagens posteriores aos primeiros anos de vida de qualquer ser humano. Neste sentido partilho das idéias de Wallon ao afirmar que “a família é um grupo natural no sentido de que é para a criança, a questão ‘de ser ou não ser’ o facto de estar colocada pelo nascimento num grupo destinado a assegurar-lhe a alimentação, a manutenção, a segurança, a primeira educação”.
No meu entender, as relações familiares podem ser definidas como o alimento necessário às primeiras aprendizagens, e como a chave da porta de entrada para todas as aprendizagens posteriores aos primeiros anos de vida de qualquer ser humano. Neste sentido partilho das idéias de Wallon ao afirmar que “a família é um grupo natural no sentido de que é para a criança, a questão ‘de ser ou não ser’ o facto de estar colocada pelo nascimento num grupo destinado a assegurar-lhe a alimentação, a manutenção, a segurança, a primeira educação”.
Tais idéias me fazem refletir sobre a relevância
das relações familiares no processo do desenvolvimento e da
aprendizagem das crianças, e a ingenuidade dos educadores que ao se
depararem com uma classe de vinte ou trinta alunos, esperam que todos
tenham as mesmas reações diante do processo do ensino e da
aprendizagem.
Vejo essa questão como uma das principais causas
de exclusão e rotulação dos alunos pelos professores e pela própria
família que costumam comparar as crianças e esperam que todos aprendam
da mesma forma. Fato este que provoca bloqueios em muitas crianças e
adolescentes que passam a apresentar dificuldades diante das
aprendizagens escolares, pois como diz Fernández “ao rotular, faz-se
calar toda possibilidade. Os rótulos funcionam como sofisticados
métodos de controle”.
Diante desta constatação questiono-me sobre o fato de que muitos
professores esperam que todos os alunos de uma sala de aula aprendam da
mesma forma e no mesmo espaço de tempo, quando sabemos que o primeiro e
o principal grupo de relações sociais e de aprendizagens é a
instituição familiar, entretanto sabemos que as famílias desses alunos
são extremamente diferentes umas das outras...
Segundo Bassols e Michellon “a família é o primeiro ambiente social
onde a criança desenvolverá suas características pessoais. A interação
com os pais e, possivelmente, irmãos determinará seus futuros padrões
de relacionamento”.
Wallon1, por sua vez afirma que é “em primeiro lugar no grupo familiar
onde a criança ocupa um lugar determinado na constelação que constituem
o conjunto dos pais e dos irmãos e irmãs. Faz aí a aprendizagem, útil
ou viciosa, de certas relações e sentimentos sociais”. Se as primeiras
aprendizagens forem positivas, certamente a criança estará mais
propensa a obter sucesso em aprendizagens e relacionamentos posteriores
e em outros grupos como, por exemplo, a escola.
Assim, constitui ilusão buscarmos turmas homogêneas nas escolas, pois
cada aluno é também filho ou filha que está inserido no ambiente de um
grupo familiar, bem ou mal estruturado com muitos ou poucos problemas;
cada aluno traz consigo a sua bagagem, a sua história com marcas
positivas e negativas, que permanecem com o indivíduo por toda sua
existência. Para Almeida : “A criança, quando vai para a escola, leva
consigo tanto os conhecimentos já construídos, quanto os prelúdios de
sua vida afetiva. Tais aspectos se interpenetram dialeticamente,
interagindo de maneira significativa sobre a atividade do conhecimento”.
Diante desta realidade consigo compreender melhor porque boa parte das
crianças que obtém sucesso nas aprendizagens escolares são provenientes
de famílias convencionais, que conseguem proporcionar uma base sólida
para as crianças, um ambiente em que elas são capazes de encontrar
modelos adultos a serem seguidos, pois como aponta Rego , “devido as
características especificamente humanas torna-se impossível considerar
o desenvolvimento do sujeito como um processo previsível, universal,
linear ou gradual. O desenvolvimento está intimamente relacionado ao
contexto sócio-cultural em que a pessoa se insere e se processa de
forma dinâmica e dialética através de rupturas e desequilíbrios
provocadores de contínuas reorganizações por parte do indivíduo”.
Pela relevância das relações familiares no processo do desenvolvimento
e da aprendizagem, entendo como necessário e fundamental conhecer e
compreender as relações das duas famílias que participaram da presente
pesquisa. Porque o ser humano é o mais indefeso dos seres ao nascer,
que só se torna realmente humano através da aprendizagem que adquire
por meio das interações significativas com adultos, já que como afirma
Rubinstein “a função do adulto para com a criança, além da proteção e
dos cuidados, é a de ‘sustentar’ no sentido de pulsionar a viver e a
continuar vivendo. É o adulto que faz a transmissão cultural. A
expectativa dos adultos significativos também influi na constituição
psíquica do aprendiz”.
Neste sentido, foram selecionadas partes das entrevistas, que tratam do
cotidiano das relações familiares e que considero fundamentais ao
processo do desenvolvimento e da aprendizagem das crianças.
Entre essas partes estão as comparações, os elogios, as críticas, a
confiança, o diálogo, a compreensão, a valorização das idéias e a
maneira como os pais acompanham o desenvolvimento da aprendizagem dos
filhos, porque o ambiente e os adultos com os quais a criança convive
em seus primeiros anos de vida são imprescindíveis para a vida
posterior. Vale dizer que para Wallon1 “o indivíduo é apenas um
elemento, um detalhe sem significação própria. É ao conjunto a que
pertence que deve tudo o que vale, onde é mais ou menos permutável”.
Segundo estudos de Vygotsky , a estrutura fisiológica humana, aquilo
que é inato, não é suficiente para produzir o indivíduo humano, na
ausência do ambiente social. As características individuais (modo de
agir, de pensar, de sentir, valores, conhecimentos, visão de mundo
etc.) depende da interação do ser humano com o meio físico e social. O
Autor chama atenção para a ação reciproca existente entre o organismo e
o meio e atribui especial importância ao fator humano presente no
ambiente.
Como os primeiros adultos que interagem com a
criança normalmente são os pais, considero relevante conhecer um pouco
mais sobre as relações familiares, para poder compreender melhor a
relação dos vínculos existentes e as causas das dificuldades de
aprendizagem de A1 e A2, bem como das crianças de modo geral, pois
segundo Maldonado , “o contexto onde vive, as pessoas com quem convive,
suas experiências de vida, certas predisposições, recursos e
características pessoais tudo isso contribui para o seu modo de ser”.
Dentro desse contexto, por meio das entrevistas e destacando os
principais pontos na relação pais e filhos, já mencionados
anteriormente, bem como reações e atitudes percebidas nas intervenções
psicopedagógicas, passo a relatar alguns conflitos familiares
existentes nas duas famílias que participaram do presente estudo, com
interferência na aprendizagem de A1 e A2.
Ao serem questionados com relação a comparação dos filhos com outras
crianças, M1 entende que comparar não é bom ao assim se expressar: Eu,
na minha opinião, acho que ele tá sendo um pouco prejudicado. “Eu não
gosto muito de comparação assim, com outras crianças, não é bom
comparar. P1 concorda com M1, quando assim se expressa: Ele está sendo
prejudicado, pelo motivo de alguém tá elogiando outras pessoas e não
ele”.
A importância de o casal falar a mesma linguagem na educação dos filhos
e evitar as comparações é um fato positivo para que a criança possa se
sentir mais segura e confiante em relação aos pais que são os
principais modelos do princípio de suas vidas. Isto é especialmente
importante, pois como lembram Bassols e Michellon3 “a capacidade da
criança de ligar-se afetivamente aos pais e percebê-los como figuras
que lhe transmitam segurança permite-lhe explorar o mundo à sua volta e
retornar para a família sempre que lhe surgirem dificuldades que lhe
gerem ansiedade”.
Ainda com relação as comparações considero importante trazer as falas
do outro casal que fez parte desta pesquisa e como os pais muitas vezes
prejudicam inconscientemente a aprendizagem dos filhos por meio de
falas e atitudes. Ao ser questionado sobre as comparações do seu filho
com outras crianças, P2 disse: Eu acho que é um estímulo pra ele,
porque ele vê o outro que tá, tá fazendo bem feito, ele também procura
fazer.
Já a esposa, M2 diz: Eu acho que é prejudicado, porque eu acho assim
que nenhuma criança é igual a outra, cada um é cada um, tem as suas
dificuldades. O filho desse casal A2, ao ser questionado sobre o mesmo
assunto assim se expressa: Isso me atrapalha pra mim aprender.
Ao perguntar para A2 porque as comparações lhe atrapalham, ele diz: “É
por causa igual se a gente tá fazendo um tema né, a gente tá fazendo um
tema assim, né, a mãe fala, [...] daí a mãe fala pra nós, oh! O caderno
do outro amigo, do amigo, as letras tá mais bonita do que a tua, daí
isso me atrapalha”. Lembro-me da expressão de tristeza nos olhos de A2
ao falar da comparação.
Assim, evidencia-se nas falas que além de o pai de A2 ser favorável às
comparações que na percepção do filho lhe prejudicam, o casal tem
opiniões diferentes com relação ao assunto; percebe-se também através
da expressão e da fala que A2 tem sido vítima das comparações.
Geralmente comparamos as crianças com outras que se saem melhores e
isso gera um sentimento de inferioridade naquele que está sendo
comparado que, muitas vezes, passa a acreditar que ele não é capaz de
obter sucesso naquilo que faz, e pela minha experiência como
psicopedagoga percebo que grande parte das crianças que apresentam
problemas na aprendizagem, demonstra muita dificuldade em acreditar nas
suas próprias capacidades.
Acerca das comparações, Morais assinala que “a experimentação do
insucesso, aliada a comparações feitas pelos pais e professores com
irmãos ou colegas que não apresentam dificuldade para aprender,
terminam transformando as crianças com distúrbios de aprendizagem em
sujeitos inseguros, tímidos e sem motivação para qualquer atividade
escolar”.
Pela experiência em atendimentos a alunos com dificuldades na
aprendizagem, percebo que toda criança sente e percebe quando os pais
apostam em sua capacidade para aprender, e isso é extremamente
importante para que ela possa acreditar em si mesma e assim persistir
na realização dos seus objetivos.
A contribuição dos pais nesse sentido é fundamental porém conforme
Maldonado8, “quando os pais constroem altas expectativas para si,
passam inevitavelmente a exigir muito da criança [...] que tenham
rendimento escolar excelente, que se sobressaia em tudo que faz para
ser melhor que os outros etc”. No entanto, o nível de expectativa dos
pais deve ter um equilíbrio para não prejudicar o processo de
aprendizagem da criança, por estar cobrando dela, algo além de sua
capacidade.
A harmonia nas relações do grupo familiar também é fundamental para
proporcionar um ambiente onde exista amor, afeto e estímulos, ambiente
este propício ao processo de desenvolvimento da aprendizagem. Neste
sentido Golbert e Moojen destacam que “fatores como qualidade da
nutrição e estimulação, clima emocional da família, influências
sócio-culturais e afetividade dos pais podem favorecer ou reduzir a
capacidade da criança para aprender”.
As críticas e os elogios também podem influenciar de forma negativa ou
positiva na aprendizagem de crianças, adolescentes e até mesmo de
adultos. Maldonado8 lembra que “a critica freqüente é responsável pela
deterioração do desempenho, seja em que idade for, especialmente em
momentos de nossa vida em que estamos mais vulneráveis, como por
exemplo, quando iniciamos alguma atividade”.
Por essa razão, que os primeiros anos escolares nos quais a criança
está iniciando sua aprendizagem formal, são como um termômetro que
determina o sucesso ou fracasso dos anos posteriores; se a criança se
dá bem todas as pessoas das suas relações e ela própria passam a
acreditar e investir cada vez mais em suas capacidades.
Segundo Golbert e Moojem10, “é ali, nas aulas do 1º ano primário, que a
criança é definida como bom aluno, lento, rápido, com problemas, sem
problemas. É ali que ele vai receber a ‘primeira etiqueta’, que terá
conseqüências no resto de sua escolaridade”.
A criança que não consegue um bom desempenho nesse espaço de tempo,
geralmente não conta com o apoio e a compreensão das pessoas que
convivem com ela. Muitas vezes passa a ser alvo de críticas por parte
dos colegas, professores e da própria família, no momento que mais
precisa de apoio e compreensão. Neste sentido considero significativas
as palavras de Maldonado8, ao afirmar que “em graus mais intensos, a
atitude crítica e depreciativa faz com que a criança acabe bloqueando
de modo permanente muitas de suas potencialidades, prejudicando seu
desenvolvimento e contribuindo para que ela passe a não acreditar em si
própria”.
Diante desta constatação percebo que os dois alunos que participaram da
pesquisa, sofriam de criticas constantes por conseqüência do fraco
desempenho nas aprendizagens escolares, o que gerava medo, insegurança
e desmotivação.
O medo de errar estava muito presente em A1, nas primeiras sessões em
que o atendi na clínica, tanto que chegava a estremecer e encolher o
corpo quando cometia algum erro na escrita, leitura, em algum desenho
que estivesse fazendo ou até mesmo na hora do jogo, além de se
expressar dizendo: Eu não consigo, não sei se vai ficar bonito... Meu
Deus! Eu errei.
No primeiro contato com M1, mãe deste sujeito, esta relatou: “A1 não
gosta de ir para a escola, ele chegou a dizer pra vó que se ele
soubesse que teria que ir para a escola não teria saído da barriga da
mãe. A1 não é preocupado com os deveres da escola, se eu não cobro o
tema ele não faz”. Em continuação a sua fala, referindo-se ao
comportamento de A1 com relação a escola, M1 relata: “Na metade do ano
passado em diante começou a se queixar de dores no peito, nos braços e
na cabeça. Levamos ele no pediatra, foram feitos alguns exames e nada
foi constatado. Depois disso ele só se queixa de dor de cabeça. Acho
que é desculpa porque a Escola já chegou a mandar ele pra casa algumas
vezes devido as suas queixas, e quando ele chega em casa larga a
mochila e logo começa a brincar, não se queixando mais de dor”.
A professora, em uma conversa informal na mesma época ao se referir a
esse aluno relata: A1 não demonstra motivação e interesse, eu preciso
estar sempre em cima, sempre dizendo, vamos A1, faz! Muitas vezes ele
se queixa de dor de barriga e, principalmente, dor de cabeça. Segundo
Bassols e Michellon3 “a recusa a ir à escola pode estar associado a
transtornos de ansiedade de separação, aparecendo em até 80% dos casos.
Nesses casos são comuns as queixas físicas como dor de barriga, falta
de ar, dor de cabeça etc. Com tais queixas, as crianças tentam
convencer os pais de que devem ficar em casa, o que muitas vezes acaba
ocorrendo”.
Penso que os problemas nas relações da família de A1 e o medo de errar
na escola, contribuíam para que o menino tivesse tais atitudes, pois
após algumas sessões de atendimento a esse menino, aos seus pais e à
Professora o medo de errar diminuiu, bem como as queixas das dores
físicas.
Por isso destaco dois pontos da história de vida desse sujeito, que
considero relevantes: um é o fato de que o pai, P1 bebia muito na
época, o que deixava a mãe, M1 nervosa, preocupada e ansiosa, sendo que
a mesma chegou a pensar algumas vezes na separação, conforme podemos
perceber em sua fala quando diz: “Já tentei me separar dele algumas
vezes, porque acho que a convivência com um pai bêbado não é bom para
os filhos, mas ele não aceita a separação”.
As crianças são muito sensíveis sabem perfeitamente quando existe algum
problema que ameaça a família. Neste momento cada um reage de uma
maneira, algumas crianças, recusam-se a ir à escola porque entendem que
permanecendo em casa poderão evitar algum problema maior. Outros ficam
com a motivação e concentração prejudicadas porque estão na sala de
aula apenas com o corpo presente, sendo que o pensamento está ocupado
com os problemas familiares. Esta parecia ser a reação de A1.
Diante dos problemas que envolviam a família de A1, M1, como quase
todas as mães fazem, tentava aliviar um pouco a tensão do lar, com o
objetivo de melhorar o relacionamento e evitar o sofrimento para seus
filhos. Nesse sentido fazia alguns sacrifícios como esse relatado por
ela, quando diz: “Nos domingos, às vezes, eu vou junto no futebol,
mesmo não gostando, para poder sair um pouco de casa e para que os meus
filhos estejam um pouco mais com o pai”.
A situação conflitante em que vivia M1 e a influência da própria
educação que recebeu de seus pais que eram muito rígidos, a deixavam
muito nervosa e prejudicavam sua relação com A1, conforme ela própria
mencionou por diversas vezes e como podemos perceber no segundo
depoimento: “ultimamente não tenho muita paciência, mas eu não cobro
perfeição do meu filho porque sei que ninguém é perfeito, e também
porque a minha mãe sempre me cobrou perfeição e isso me fazia sofrer”.
É de conhecimento amplo que os pais sempre acabam reproduzindo de
alguma maneira a educação que receberam de sua família de origem, isso
parecia estar acontecendo com M1, pois ao mesmo tempo que critica a
educação rígida de seus pais, revela que também age com rigidez em
algumas situações com seus próprios filhos, como podemos perceber nesta
fala ao ser questionada sobre a crítica e o elogio, quando se refere a
A1: “[...] se eu corrigir ele gritando, xingando ele não vai me
escutar, nem vai da bola porque ele vai ficar né, que eu sei porque eu
já fiz isso, cansei de fazer isso, só que agora eu tô tentando né, ter
mais paciência, ter mais [...] se dedicar mais pra vê se ele [...]
porque quanto mais eu xingar ele menos ele me escuta. Se eu tiver
paciência com ele, e disser não você tá errado aqui você tem que fazer
assim, daí ele me escuta, e se não ele não me escuta, ele nem dá bola
pro que eu tô falando, ele fica olhando para outro lugar, ele fica
olhando pras paredes, ele fica [...] ele não me escuta se eu gritar,
se eu falar com paciência ele me escuta”.
Neste clima conflitante em que vivia A1 quando
iniciei o trabalho com esta família, devido ao problema de alcoolismo
do pai e a ausência do mesmo na educação dos filhos, somado ao
nervosismo, a ansiedade e falta de paciência da mãe, contribuíam, no
meu entender, ao estado de apatia e medo de errar de A1, no espaço
escolar.
Como mencionei anteriormente, diante de situações conflitantes na
família as crianças reagem de diferentes maneiras e, geralmente, o
reflexo dessas reações se manifesta na escola. Para Garbar e Theodore
“uma criança pode querer passar uma mensagem seja mexendo-se muito ou,
ao contrário, ficando encolhida num canto, ou ainda fazendo xixi na
cama ou ficando doente”.
Neste sentido, enquanto A1 apresentava queixas de dores físicas, apatia
e desmotivação com relação à aprendizagem escolar, A2 reagia de forma
agressiva e indisciplinada no espaço da sala de aula com o propósito de
chamar a atenção, ou como um pedido de socorro, esta era a atitude do
aluno no início de 2004 e no ano anterior, segundo informações da
Escola. Conforme Molina-Loza “uma sabedoria inconsciente leva a criança
a buscar todo tipo de artimanha para atrair a atenção dos seus pais. O
problema escolar é, na minha opinião, a mais importante delas. A
criança percebe que suas dificuldades escolares afetam fortemente os
seus pais e que esse é um meio seguro de obter um contato direto com
eles. A criança que se sente insegura e abandonada recuperará, ao ser
repreendido, o seu sentimento de presença e proximidade com os pais”.
Era exatamente desta maneira que eu percebia A2, inseguro e abandonado.
Os conflitos familiares estavam presentes e influenciavam a vida
escolar do menino que demonstrava atitudes e comportamentos no sentido
de chamar a atenção da professora e dos colegas.
No primeiro contato com a Professora no início do ano letivo ela assim
se referiu ao aluno: “Ele tem bastante dificuldade na aprendizagem,
sempre está fazendo alguma brincadeira para chamar atenção, como bater
com o lápis na carteira, sentar no chão e outras. Ele também briga e
mente muito”.
Às vezes a criança age desta maneira para pedir socorro, já que não
encontra outra saída para conseguir a atenção dos pais. Esta parecia
ser a realidade de A2, quando o conheci. Para a Autora mencionada12 “o
comportamento problemático do filho pode não ser mais do que a única
forma que ele encontrou de manifestar sua angústia e seu pedido de
socorro”.
Na primeira visita à Escola ao conversar com a Orientadora Educacional,
a mesma informou-me que a família de A2 não é muito comprometida com a
vida escolar do filho, e que a mãe culpava a Escola e as professoras
pelas dificuldades do mesmo na aprendizagem. Em algumas conversas
informais com a mãe M2, ela disse que em casa, com ela o menino não
escreve errado e faz a letra bonita, deixando transparecer, de certa
forma, que o ambiente da escola não é bom.
A falta de comprometimento por parte dos pais de A2 que é filho único,
logo ficou evidente, pois eles nunca tinham “tempo” disponível para o
filho. Praticamente toda a semana era necessário entrar em contato com
eles para combinar um horário e pedir encarecidamente que trouxessem o
menino para as sessões e, mesmo assim, algumas vezes ele não
comparecia. Na escola A2 contava para a professora que chorava porque
os pais não o levavam para a clínica e que ele queria ir, pois gostava
das atividades que lá realizava.
Também foi possível perceber desde o princípio que havia certo
desequilíbrio na relação entre o casal M2 e P2. Geralmente quem trazia
o menino para as sessões era o pai que, muitas vezes, falava da
dificuldade de educar o filho devido a divergência de idéias e atitudes
entre ele e a esposa, com relação a educação. Exemplo disso é o
depoimento a seguir: É difícil educar o A2 porque a M2 é muito rígida,
porque ela teve uma educação muito rígida. Ele não pode fazer nada, não
pode sair de casa sozinho. Eu já sou diferente.
A influência que herdamos mediante a educação que recebemos dos nossos
pais é muito forte. Mesmo contra vontade e de forma inconsciente muitas
mães e pais acabam reproduzindo de alguma forma a educação que
receberam de seus pais.
Esta divergência de idéias com relação a educação dos filhos, muitas
vezes gera conflitos entre os casais, principalmente quando há uma
grande diferença cultural das famílias de origem e isso acontece muito
comumente em nossa região em que a diversidade de culturas e valores é
considerável.
Além das divergências de idéias entre o casal
existe um outro agravante que, no meu entender, tem prejudicado a
aprendizagem de A2. Refiro-me a relação entre o filho real e o filho
idealizado pelo casal.
Todo pai e toda mãe antes mesmo da concepção e durante a gestação
elaboram a imagem do filho que consideram ideal, e fazem inúmeros
planos para ele. Ao nascer, nem sempre o filho real que vem ao mundo
identifica-se com o filho projetado pelos pais, aceitar esse filho pode
ser muito difícil porque corresponde à morte do filho idealizado.
Com relação a esse assunto, Garbar e Theodore11 destacam que os pais,
“sonham com o filho ideal e temem ao pensar que, talvez, ele seja o
oposto de tudo o que imaginaram. Por vezes chegam a um conflito latente
levantado pela contradição entre o desejo de ter um filho e o de
livrar-se dele”.
O casal P2 e M2 passou por uma experiência parecida. Os problemas
iniciaram ainda durante a gravidez, período em que ocorreu uma ameaça
de aborto e depois M2 teve que permanecer praticamente o tempo todo em
repouso e aos sete meses de gestação nasceu A2, com alguns problemas
conforme podemos perceber na fala de P2: Ele nasceu de sete meses e
ficou na encubadora. Tinha as perninhas tortas, teve que fazer
fisioterapia e usar calçado especial.
M2 ao falar sobre o assunto assim se expressa: O problema que eu tive
na gravidez é um problema genético da família do meu marido. A2 nasceu
fraquinho, sempre foi fraquinho. Aprendeu a caminhar com quase dois
anos. Começou a ter convulsões com sete anos e então passou a tomar
Tegretol, mas ele começou a ter alergia, então o medicamento foi
trocado por Gardenal que ele toma até hoje.
Esses medicamentos são receitados para pessoas que sofrem de convulsões
e geralmente causam algumas reações que podem interferir no processo de
aprendizagem. Para Schwartzman “o fenobarbital (Gardenal), barbitúrico
muito utilizado em casos de manifestações convulsivas, pode causar ou
exacerbar dificuldades de atenção – concentração”.
Para A2 o maior problema do medicamento é a reação alérgica que se
manifesta, geralmente, uma vez por semana, sendo responsável por um mal
estar muito grande que de alguma maneira interfere na produção escolar
do menino. Porém, com relação ao estado físico e mental não existem
maiores problemas. A2 está atualmente com dez anos de idade, é um
menino perfeito e possuidor de um grande potencial.
No entanto, parece que o filho perfeito idealizado por P2 e M2 antes do
nascimento, morreu no dia em que nasceu um menino com alguns problemas
que foram praticamente todos superados com o tempo, mas o que
permaneceu vivo na memória desse pai e dessa mãe foi o diagnóstico
inicial dos médicos. Foi possível perceber tal diagnóstico em diversos
momentos nas falas destes pais para justificar as dificuldades na
aprendizagem, como na fala P2: “Quando ele nasceu os médicos disseram
que ele não ia nem sobreviver! E se sobrevivesse não iria caminhar
porque tinha as perninhas tortas”.
Falas parecidas com essa também eram pronunciadas com freqüência por
M2. Desta maneira, os pais demonstravam estar satisfeitos com os
progressos no desenvolvimento e na aprendizagem do filho, aceitando
como algo perfeitamente normal as dificuldades na aprendizagem escolar,
já que, segundo os médicos A2 nem “era para sobreviver” e muitos menos
iria poder caminhar.
Diante dessa realidade percebo que a dificuldade deste sujeito na
leitura, na escrita e na matemática, acontece, em grande parte, porque
seus pais não conseguem acreditar em sua capacidade, entendem que tudo
o que o filho já aprendeu é lucro diante da “profecia” dos médicos.
Neste sentido considero significativas as palavras de Falsarella quando
lembra que “uma imago parental positiva oferece sustentação, isto é,
prepara a criança para lidar com situações adversas, fornece-lhe um
arsenal de recursos internos de instrumentos que lhe possibilitam
enfrentar situações inesperadas. É como se tivesse dentro de si um
porto seguro onde ancorar em meio às tempestades. Na escola, confiança
e segurança tornam a criança mais produtiva e mais criativa para
enfrentar as exigências escolares de relacionar-se com a instituição,
com os colegas e professores e com a aprendizagem”.
Pela minha experiência como psicopedagoga, pude perceber que quando os
pais que são os primeiros adultos que interagem com a criança e servem
de modelos para elas, não conseguem apostar na capacidade do filho
este, possivelmente, poderá ter dificuldade para acreditar em sua
própria capacidade, e por conseqüência apresentará dificuldades na
aprendizagem escolar.
Quando a criança percebe que seus próprios pais não apostam em sua
capacidade, ela normalmente passa a ter uma imagem fragilizada de si
própria, o que pode prejudicar de forma considerável sua aprendizagem.
Para Tinoco , “quando portadora de um ego fragilizado, a criança tem
dificuldade em dedicar-se à aprendizagem, pois toda sua energia está
direcionada a resolver os conflitos de sua vida interior”. Essa é, no
meu entender, a situação de A2.
Na verdade o menino não consegue livrar-se do rótulo que recebeu ao
nascer por meio do diagnóstico médico. Seus pais continuam presos às
palavras do médico e não se deram conta que o filho superou
praticamente todos os problemas que possuía ao nascer. Segundo Garbar e
Theodore11 “algumas vezes, a criança fica presa entre missões
contraditórias, que lhe chegam de vários lados, injunções
inconciliáveis às quais ela só pode responder por meio de sintomas
graves”.
E, pensando nas possibilidades e conseqüências de se rotular as
crianças tanto na família quanto na escola , penso ser extremamente
importante buscarmos viabilizar uma parceria entre essas duas
instituições que, no meu entender, são as mais importantes na formação
do ser humano.
REFERÊNCIAS
. WALLON, H. Psicologia e educação da criança. Lisboa: Editorial Vega , 1979. p. 166, 175, 189.
. FERNÁNDEZ, A. Os idiomas do aprendente: análise das modalidades ensinantes em famílias, escolas e meios de comunicação. Porto Alegre, Artmed Editora, 2001. p. 33.
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