O idoso asilado
Quando o próprio idoso se aliena, não tendo consciência de sua história, do seu papel no mundo, tende à acomodação, na qual tudo aceita, até mesmo a pobreza de uma vida medíocre.
“Aqui eles são muito bons pra nós, não falta nada!”
Observei que era exigido que ficassem sentadinhos, que tomassem banho, independente do estado em que se encontravam. Tudo tinha que mostrar-se muito limpo. Isso ficava ainda mais evidente quando recebiam a visita dos órgãos fiscalizadores.
Numa ocasião, que antecedia ao Natal, ao chegar na porta de entrada vi os preparativos para as festas natalinas. As profissionais da instituição estavam enfeitando a árvore e colocando arranjos nas mesas. Mas onde estavam os residentes? Todos estavam sentados na sala de visitas olhando TV. Perguntei por que não estavam lá ajudando com os enfeites? Cochicharam: “elas não querem que nós ajudemos, dizem que não conseguimos fazer direito e atrapalhamos”. Mas então, os preparativos Natalinos eram apenas uma justificativa à sociedade? “Pobres velhinhos!”
Para anular o ser humano basta que lhe tiremos a sua possibilidade de expressão, a sua capacidade artística, o “O asilo guarda em si uma imagem ambígua. É, para representar seus clientes o lugar do não trabalho onde quase tudo já foi perdido, faltando apenas perder a vida”. (Santa’na, 2000 pág. 53).
Mas então, o que é o belo senão a expressão das próprias imperfeições? Desta aceitação emana o poder daquele que “imperfeito”, se torna plenamente perfeito aos olhos da compreensão.
Muitas vezes, se faz necessário ouvir além das palavras para escutar o que é essencial.
Nos primeiros encontros, olhava os residentes considerando as informações do pessoal do quadro de trabalho. Assim, tinha certo receio de aproximar-me deles.
“Muitos a esta altura, revelam neurosos e outros desiquilíbrios psíquicos, devidos ao aparente esvaziamento e inutilidade da existência”.(DEECKEN, 1997-65).
As pessoas que vivem em constante repressão tendem a fechar-se como caramujos, desistem de si mesmas e da vida. Como conseqüência disso, surge a depressão, seguida por distúrbios mentais, que nada mais são do que pedidos de socorro ou, seriam eles, sinais de alerta de uma humanidade que hoje, envelhecida e sem forças reflete no espelho a imagem das gerações mais jovens?

